Arquivo de outubro de 2007
Circuits of cool
31 de outubro de 2007A MTV internacional acabou de fazer um grande estudo sobre o jovem e a tecnologia. Tem coisas bem legais e mais uma vez a galera da Perestroika pode conferir o resultado em primeira mão.
Se antes, ao pensar no jovem (sim, vocês, alunos), necessariamente se falava e discutia música, moda, tênis, hoje o assunto na mesa de reuniões das corporações capitalistas mais perversas, nas discussões estratégicas, o que se questiona é o uso que o jovem está fazendo da tecnologia e o impacto em suas vidas. Palavras estranhas para eles, como My Space, You Tube, blog, iPod entram na roda. E é deste lugar que se tiram conclusões geniais, como a de que o jovem não assiste mais TV.
BULLSHIT.
Então como a galera, de fato, tá vendo tudo isso? Bom, era exatamente essa a proposta do estudo.
A resposta é óbvia e possivelmente jamais seria apontada por um senhor de sessenta e poucos anos que acaba de sair de uma reunião onde foi apresentado o resultado financeiro da empresa do mês.
Pois bem, vocês (jovens entre 14 –não é o caso- até 24 anos –agora sim) não amam ou odeiam, vocês simplesmente NÃO percebem a tecnologia . Assim como eu, tiozão, não percebo a geladeira. A TV a cores. O Genius. Eu vim ao mundo e os alimentos já eram guardados na cozinha e se mantinham resfriados dentro de uma caixa retangular, pesada e que, se fosse Frigidaire e tu fosse abrir molhado, dava um baita choque. Pra minha vó, aquilo era tecnologia. Pra mim, geladeira.
Tipo, o Blackberry é, para mim, o que a TV a cores ou depois a primeira transmissão ao vivo foi para o meu pai. Uma novidade percebida. E é quando chamamos isso de tecnologia e não pelo nome.
E o Genius. Bom, eu até chamo pelo nome, mas até hoje não entendo muito bem pra que serve.
O resultado completo a gente pode mostrar em aula, se vocês quiserem. Abaixo, alguns tópicos e conclusões. Algumas mais percebidas, outras bem bacanas. Ah: a pesquisa foi feita com mais de 18.000 jovens, de 16 países. No Brasil, só jovens das classes A e B foram ouvidos).
- Em função da tecnologia, o jovem está mais indoor.
- Os jovens de todo o Mundo (literalmente) estão mais parecidos, pois têm acesso à mesma mídia.
- A forma de relacionamento com os amigos mudou. Hoje o jovem tem mais amigos. E amizades mais profundas. Dizem que conseguem falar coisas pelo IM que não diriam olhando no olho. Conversam mais.
- Os amigos agora são os canais de comunicação mais relevantes, mais cativantes e os mais disponíveis para um profissional de marketing. Os amigos, assim como as marcas, possuem o poder de conferir credibilidade a um produto
- Os brasileiros têm, em média, 94 amigos (a média mundial é 53). 6 íntimos, 40 amigos e 48 amigos online, que ele raramente ou nunca encontra pessoalmente (potencial de buzz pela internet bizarra, certo?!).
- O perfil de uso da web pela galera: a maioria é “observador” (só assiste) e “promotor” (assiste e repassa). O jovem de hoje não é mais criativo, o que acontece é que tem mais visibilidade.
- A TV continua sendo uma das opções favoritas. O Brasil é o país que mais tem TVs no quarto no mundo! É uma das únicas atividades que até o jovem pára pra fazer, e relaxa, se abre. Fica passivo (sem segundas interpretações.).
- Adoram comerciais de 30’’. Pra eles é um baita tempo, dá pra contar tranquilamente uma história. E, se for bacana MEEESMO, ele ainda vai colocar no YouTube e repassar pra galera. Claro, vai conferir status pra ele (é a glória de uma marca, depois disso, o cara pode se aposentar).
- 58% prefere mais os comerciais de 30’’ do que a programação da TV.
- Os jovens são mais impactados pela propaganda na TV do que na internet. A TV, para o jovem, é a oportunidade de conhecer aquilo que eles não estão buscando. Além disso, o meio confere mais credibilidade.
- O jovem não mudou. Hoje, o que eles têm mais são ferramentas.
- O sucesso de uma tecnologia depende do uso/necessidade (olha a geladeira e o Genius, quem existe até hoje?). Sendo que o conceito de necessidade ainda depende claramente de sexo, idade e local.
- O jovem tem desejo de estar sempre conectado. Quase metade (na pesquisa tem o número exato), quando acorda, a primeira coisa que faz é olhar o celular. E antes de dormir, a mesma coisa. Mais da metade, quando entra na internet, a primeira coisa que faz é acessar o IM e email.
- A tecnologia simplificou, sim, o mundo para o jovem. Ele reconhece.
- Música mais importante do que nunca. Ele só consome, gasta, em ocasiões especiais: um CD com edição limitada, um CD que goste de TODAS as músicas, um ingresso para show, um DVD ao vivo. Mas a experimentação se dá pela web. A grana só vem para o que vou simplificar chamando de experienciação.
Os dados são estes.
Eu acho TV punk. Adorei ver isso no resultado da pesquisa. Adorava criar filmes. Uma grande idéia, bem executada pra caramba, com grana pesada de produção, é muito forte. Mexe com vários sentidos. Não é por nada que o cinema é o CINEMA. E com a audiência que a TV tem no Brasil, olha meu, é difícil de bater falando em estratégia de marketing para alto volume de vendas.
E é claro que se o filme for bom pra TV ele tb vai ser bom pro YouTube. E vai ficar mais forte quanto um amigo passar pro outro, que passar pro outro. Mas até isso a TV potencializa. Ela espalha o chumbo. São mihões de pessoas que vão ver o comercial, basta um decidir colocar na internet e tudo pode acontecer por ali tb.
Isso se a idéia não tiver rendido mais ações. Porque um mais um em marketing sempre é mais do que dois.
Ah, ah, falando em tecnologia: quem vai ganhar o iPod?
Como surgiram as grandes expressões
30 de outubro de 2007Vocês já ouviram alguém falando “Dá a volta por cima”? Da onde veio isso? Por que toda vez que eu fico brabo ou puto com alguma coisa alguém chega e diz “ah, tu dá a volta por cima”? Quem foi a primeira pessoa que falou “dá a volta por cima”? ô meu! dá a volta por cima.
Essa é uma pergunta que me intriga há alguns anos já. E vocês podem imaginar que, dedicando algum tempo pra pensar sobre esse assunto em específico, eu devo ter chegado a alguma segunda etapa do raciocínio. Que não é assim, uma conclusão digamos, mas que é com certeza mais do que tu já parou pra pensar, porque tenho bastante convicção de que você não parou para pensar nesse assunto por motivos que eu entendo plenamente.
Buenas, o que eu fiquei pensando é que essa expressão poderia ter surgido assim: o cara tava dirigindo no centro de porto alegre. Aí, a mulher tava conversando com ele, e ele tentando descobrir como pegava a rua Tenente Bartolomeu. Só que, muitas vezes essas ruas menores, dumas celebridades históricas do segundo escalão, tipo o Oscar Magrini na Globo, eles não colocam a plaquinha azul aquela em todas as esquinas. Então o cara vai olhando achando que aquela ali é a rua, mas ao mesmo tempo achando que não, afinal, não tem plaquinha. E, ao mesmo tempo fazendo o marcador verborrágico só pra parecer que eles está prestando atenção na conversa da mulher: “huhumm…huhum”.
Aí, ele se liga quando o carro já tinha passado do ponto certo de fazer a curva que não, aquela deveria ser mesmo a rua. Aí pára meio bruscamente e tenta dar uma ré. Só que daí já vem um monte de carro atrás, meio botando luz alta e já ligando o pisca pra sair de trás do cara. E ele fica meio com vergonha de estar atrapalhando o trânsito ao mesmo tempo que quer meio dar uma de fodalhão e não se mixar só porque tem uns caras reclamando porque, afinal, tem um monte de vezes que pára um filho da puta na frente dele que no final das constas dá a ré mesmo e entra na rua certa.
Isso tudo dura uns 2 segundos que é o tempo de ver que, tá, não vai dar. Daí o cara engata a primeira e, meio por ter perdido a rua e meio porque tá se sentindo um CAGALHÃO, fica puto. E começa a xingar no carro interrompendo a conversa da mulher. PORRA. QUER MERDA DE RUA QUE NÃO TEM A PORRA DA PLACA.
Aí a mulher vira para ele e diz:
“Calma amor. Pega a próxima a direita e dá a volta por cima.”
É bem improvável. Mas poderia ter sido assim
Módulo II
29 de outubro de 2007Agora é oficial. No primeiro semestre de 2008, a Perestroika lança o Módulo II. Será a continuação do Módulo I, na mesma batida da Perestroika que vocês já conhecem - porém com um conteúdo ainda mais preza.
Do pouco que podemos adiantar, uma coisa é certa: os indicados terão prioridade na inscrição. Portanto Facco, Rech, Nato, Carol, Laura e Tiago já saem em vantagem.
E na turma 2, quem serão os indicados? Hein? Hein? Por enquanto, não tem nada decidido. O Jogo, A Coisa e os trabalhos que ainda faltam é que vão dizer.
O poder do design
25 de outubro de 2007Minha filha acabou de completar 18 meses, que não é 18 anos mas deve ser a maioridade infantil. Deve representar o momento onde a pessoa deixa de ser bebê e vira criança. No meu caso, isso representa que agora ele decide a hora que tem que tirar o sapato, qual o pijama que ela quer vestir e qual o remédio que ela quer tomar.
E também representa que agora ela define se vai ou não tomar a mamadeira, o que vem tornando a hora de dormir bem mais complicada à noite. Ela já entendeu que a hora de mamar é hora do sono, e, como ela já é maior de idade, não quer dormir cedo. Dez e meia, onze horas é cedo demais e não dá para pegar a reprise da Pinky Dinky Doo no Discovery Kids.
Ontem, depois de negar o mamá, ela, bem bela sentada no sofá assistindo Pinky Dinky Doo, começou a pedir “Água, água. Água, água.” (ela sempre repete as palavras).
Aí, eu tive o insight genial. Vou sacanear essa guria, eu pensei. E vou usar todo o poder do design como meu aliado.
É aquela velha história: teste cego de cerveja, ninguém adivinha o que tem dentro. O que as pessoas bebem é o rótulo e a imagem da marca, como vocês bem puderam comprovar em aula. Tem também o velho chavão do blind-test da Coca e Pepsi, onde ninguém acertava qual é qual.
Eu tenho um amigo que mantém um pote de ferro da Manteiga Aviação em casa. Aí, ele põe uma manteiga qualquer dentro e depois regozija-se ouvindo os convidados elogiando “Essa manteiga aviação, não tem nada igual, né?” - Eu vi isso acontecendo.
O meu plano: colocar o leite que jazia dentro da mamadeira intocada dentro do copinho de água dela, que é fechado e não dá para ver dentro. Certamente, o poder do design ia mexer com a cabecinha inocente da minha filha e ela ia tomar leite sentindo gosto de água.
Resultado?
Ela tomou meio gole, jogou o copo longe, olhou pra mim e disse “Água, água.”
Moral da história:
Se num blind test você colocar geléia de figo no pote de Aviação, Fanta Uva na lata de Coca ou Sangue de Boi na garrafa da Kaiser, os resultados poderão variar.
Pergunta
23 de outubro de 2007Amigos, me respondam por gentileza, se possível for: um estudante de design tem que fazer quantas cadeiras antes de se formar?
Eu e os pronomes demonstrativos
22 de outubro de 2007As pessoas vivem me fazendo perguntas.
“Felipe, o que tu acha disso?”
“Felipe, como tu me explica isso?”
“Felipe, podia me ensinar a fazer isso?”
“Felipe, como pode acontecer isso?”
“Felipe, é possível isso?”
“Felipe, como é que tu faz isso?
“Felipe, como funciona isso aqui?
E sabe o que eu respondo para essas pessoas?
“Depende do que tu quer dizer com “isso”. Dá pra ser mais específico?”
O Mestre Cervejeiro
22 de outubro de 2007Vocês já pararam pra pensar na vida do Mestre Cervejeiro? Não, né? Então, da próxima que for reclamar da vida, pense na seguinte cena: depois de um dia inteiro de trabalho, provando caixas e mais caixas de cerveja para ver se está tudo bem e - sabe como é - fazer o controle de qualidade e tal, o mestre chega em casa. Cansado. Exausto. Querendo relaxar. Aí, o que ele faz? Decide tomar uma cervejinha. Uma só, para desopilar, tirar os problemas do trabalho da cabeça.
Aí, ele tá ali, tomando aquela cervejinha, sorvendo com sua sapiência de mestre, degustando mesmo, deixando suas papilas gustativas absorverem a mistura perfeita de lúpulo, malte e cevada.
Daí, no melhor do descanso, chega a mulher dele reclamando:
“Pô Peixoto, quantas vezes eu já te disse pra não trazer trabalho pra casa?”
Toma outra, Peixoto.
Design Minguante
22 de outubro de 2007Gente, acho que achei um erro na teoria do Design Inteligente.
Se esse tal designer inteligente é tão inteligente assim, me expliquem o seguinte: por que a lua crescente tem forma de “C”, mas a lua minguante não tem forma de “M”? Hein? Hein?
Arrá!
Eu adoro volante bandido.
20 de outubro de 2007Uma das coisas que eu mais gosto na Perestroika é, como diz o Felipe, quebrar a matrix da turma. Porque no primeiro dia, a gente olha lá de cima e fica imaginando quem vocês são. Mesmo com os questionários, mesmo com aqueles cinco minutos de bate-papo na recepção da DCS, fica impossível tirar qualquer conclusão sem cair em preconceitos e estereótipos.
Com o passar das semanas, cada um vai se revelando. E é aí que a coisa fica bacana. O Lucas deixa de ser o filho da Helena. O Panichi deixa de ser o pinta que imita o Silvio Santos. Cada um se tranforma num cara diferente daquele neguinho do primeiro dia de aula. E invariavelmente essa nova pessoa é muito mais legal.
É nessa hora que a gente vê quem vocês realmente são.
O mercado publicitário nos induz a seguir um modelo que nem sempre combina com a gente. Temos que comprar na Mulher do Padre. Temos que cortar o cabelo no Sexton. Temos que andar de All-Star e Ipod. Ou não, mas daí vão olhar você dos pés à cabeça com um ar de reprovação. Justo o mundo da publicidade, que se diz tão mente aberta.
Não há nada de errado em gostar da AMP ou de All-Star. O errado é ser engolido por esse universo. Não é fácil ser pagodeiro num meio onde todo mundo gosta de música eletrônica. Não é fácil ser mauricinho quando todo mundo é hype. E se você é pagodeiro ou mauricinho, tenho certeza que vai concordar comigo.
O mais importante é ser autêntico. Porque você só consegue dizer coisas verdadeiras - seja na propaganda, seja na vida - se você for verdadeiro. Quando a gente vive um personagem o tempo todo, e só deixa o papel quando deita na cama, alguma coisa está errada.
Se o seu negócio é pagodão, desses bem bagaceiros, não tenha medo de assumir. Até porque, uma hora ou outra, isso vai ser uma puta vantagem competitiva para você. Já pensou, quando tiver que criar um jingle chicletão para a Eldorado? Tenho certeza que vai tirar de letra.
Seja autêntico. Os caras mais fodas que eu conheço são assim. E só são fodas porque são assim.
Eu adoro volante bandido, jogar poker, Jack Black, cafuné, almoçar sozinho, feijão com farinha, camisa de botão, humor negro, filmes de máfia, dar aula na Perestroika, minha mulher, a sobremesa do Constantino, as piadas do meu vô, Diogo Mainardi, conversar com estrangeiros, Buenos Aires, fazer churrasco ouvindo Sala de Domingo. Eu odeio dirigir, tirar fotos, casamentos, fazer a barba, trabalhar no final de semana, livros com mais de 100 páginas, frutas, verduras, inverno, morar longe dos meus pais, Cinema Novo, gente que dança no meio da rodinha, Faustão e luau com violão. E tudo isso, certo ou errado, eu tento colocar nos meus títulos e roteiros da maneira mais verdadeira possível. Porque essa conjunção de fatores, essa visão de mundo, é um privilégio só meu. Se eu conseguir tranformar isso numa coisa interessante, será impossível copiar.
Nesse sentido, um aluno conquistou meu respeito e admiração. Um cara que é bem resolvido, que não se intimidou nem pelos alunos, nem pelos professores. Que lida com as brincadeiras com bom humor, sem nunca esquentar a cabeça. E que, mesmo com todas as provocações, nunca foi capaz de nos xingar com um único palavrão.
Tenha sempre um plano B.
17 de outubro de 2007No último filme da trilogia Bourne, um dos fodões cita uma frase que eu sempre tive como lema, mesmo sem conhecê-la.
“Espere o melhor, mas prepare-se para o pior”. Seja otimista, mas sempre tenha um Plano B.
Na propaganda esse é um exercício diário. É sempre importante fazer pensamento positivo. Mas nunca deixe de ter uma cartinha na manga, uma idéia na mocosa, caso dê tudo errado com o Diretor de Criação. Um título reserva, caso o cliente reprove na última hora. Um layout coringa, pra quando surgir um pit fura-pauta. Tenha sempre uma saída pela esquerda, porque surpresas numa agência de propaganda são tão comuns que nem surpreendem mais.
Por mais que você se planeje, por mais organizado que você seja, por mais que você preveja os acontecimentos, volta-e-meia dá merda. E normalmente quando a bomba está prestes a estourar, quem corta o fio vermelho é a criação. Veja o meu caso: entrei a madrugada por causa de um trabalho muito legal, mas que está queimadaço. Tô aqui, criando roteiro em cima de roteiro, porque amanhã não teremos chance de errar. Já devo estar no plano J.
Foda que, assim, faltou tempo para escrever um post inteligente no Blog da Perestroika. E daí, o que se faz?
Bom, daí você coloca um vídeo do novo Winning Eleven para Wii. Que não tem nada a ver com propaganda - mas é o jogo predileto de 9 entre 10 Perestroikanos.
