A pergunta que eu mais respondi nas últimas semanas foi: “O que você vai fazer na Perestroika?”.
É verdade que boa parte das pessoas parecia empolgada, feliz e demonstrava bastante curiosidade com a minha decisão. Por outro lado, também é verdade que muitos reagiram de uma forma, digamos, um pouco intrigada.
“Deixa eu entender, Tiago. Você está largando a DCS, deixando de criar para uma puta verba como Olympikus, abrindo mão de ter o Rafa Bohrer como dupla, o Beto Callage como Diretor de Criação, um cliente cabeça-aberta com o Márcio, abandonando um bom salário, para ir para a Perestroika? É isso mesmo?”.
Evidente que ninguém perguntava com essas palavras. Mas nas entrelinhas, sim, elas estavam todas lá.
Acho isso até certo ponto curioso. Porque essas pessoas certamente entenderiam se eu dissesse que estava saindo da agência para me reciclar. Para estudar numa escola de criatividade. Onde teria aulas de Consumidor, com os caras que atendem Nike nos EUA e Nokia na Finlândia. Ou um curso de Design com uma galera que trabalhou na Itália, na Holanda e no Japão.
Se eu contasse essa versão, acredito que diriam: “É isso aí, Tiago. Um ano vai passar e a vida de todo mundo vai estar igualzinha. Enquanto que você vai se tornar um criador muito melhor.”
Pois é exatamente isso que eu vou fazer. Só que esse curso fica aqui, em Porto Alegre. A cinco minutos da minha casa.
A dedicação full-time à Perestroika vai fazer a nossa empresa crescer. Mas também vai possibilitar que eu tenha tempo para participar de todos os nossos novos projetos. Consumer Beat, Som, Mashup e Design.
Então, mesmo que aconteça um desastre, e dê tudo errado - a Perestroika quebre, eu fique sem emprego, sem dinheiro e tenha que voltar para o mercado -, tenho certeza que, em seis meses, serei um profissional muito mais valorizado do que sou hoje. Um criador com muito mais domínio da técnica da redação, com conhecimento de propaganda, pesquisa, tendências, mercado e novas plataformas de comunicação.
Reparem: mesmo que eu quisesse continuar sendo Redator, estudar na Perestroika seria a melhor decisão que eu poderia tomar para a minha carreira.
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Por sinal, isso me dá o gancho para explicar que a minha saída da DCS e da redação não tem nada a ver com ter enchido o saco da agência ou da profissão.
Eu adoro criar e não teria problema nenhum em ser redator por mais 10, 20, 30 anos. Ao mesmo tempo, existem outras atividades que também me dão prazer. Dar aula. Administrar o meu negócio. E (por que não?) criar. Afinal de contas, esse é um pensamento muito ingênuo. Achar que só existe criação dentro de um departamento de criação de uma agência de propaganda.
É, porque se você diz que está saindo da criação de uma agência de publicidade para virar administrador, a reação é quase sempre a mesma. “Esse aí cansou”. “Esse aí virou um burocrata”. “Esse tinha tudo para ser um criador bacana, mas desistiu no meio do caminho”.
Fico imaginando como reagiriam os designers da Ferrari, os estilistas da Diesel e os músicos do Radiohead a esse pensamento. Já que eles nunca trabalharam numa agência de propaganda – e, por isso, alguns devem achá-los extremamente burocratas.
Para mim, a tendência das pessoas criativas é buscar o novo. Por muito tempo, eu busquei novas idéias publicitárias, novos posicionamentos, novos formatos de propaganda. A partir de hoje, vou continuar fazendo a mesma coisa. Só que agora estou atrás de um novo negócio, um novo emprego, uma nova profissão.
Meu pai, quando saí do colégio, disse que não se preocupava com o curso para o qual eu prestaria vestibular. Afinal, com 40 anos de idade, eu estaria trabalhando numa profissão que talvez nem existisse ainda.
Hoje, eu vejo que ele tinha toda razão.
Portanto, a todos que torcem por mim, e que ficaram meio ressabiados com a minha decisão, eu digo: não se preocupem. A Perestroika não é meu Plano B. A Perestroika é meu Plano A.
