A Laura, nossa designer-planejamento, me perguntou do porquê de eu ter escolhido a marca do Rio 2016 como exemplo de “sobrinho-do-dono-design”.
Ela ficou curiosa quanto aos critérios que me fizeram chegar a essa escolha.
Bom, confesso que não elaborei muito profundamente esses critérios, e fui mais pelo feeling - de que o conjunto de elementos não funciona. Vou tentar elaborar melhor:
Tenho a sensação de que até posso entender as intenções do designer, mas me parece que faltou sutileza, síntese e qualidade gráfica para que os conceitos principais pudessem prevalecer e trazer uma significação primeira - o que tranquilizaria quem visse a marca e incentivaria a descobrir os demais significados.
Há o Pão-de-Açúcar, imagem-ícone (e um tanto desgastada, talvez) do cenário carioca, representando a terra. Há a água e o sol, completando o cenário. Os três deveriam formar uma massa visual mais coesa, que suportasse melhor a mistura com os demais elementos da marca. Segundo a justificativa que encontrei, há um nadador mergulhando, cujo corpo seria o Pão-de-Açúcar e a cabeça, o sol.
Vamos às tipologias escolhidas. Há uma fonte sem serifa e extremamente geométrica para a palavra Rio (temos aqui um elo olímpico, talvez?), outra clássica (segundo justificado, “em alusão à Grécia”) para a data e outra básica para o decodificador. Isoladamente, nada contra as escolhas. No conjunto com os demais elementos, too much information. O bastão que forma o R solto e em cor diferente do resto da palavra Rio e o 6 passando por cima do elemento gráfico azul só ajudam a confundir: pra onde olhamos primeiro?
A proposta é contemporânea ou clássica? Pra mim, é bastante anos 80, sem que houvesse intenção.
E as cores? Bandeira brasileira + o “heat” do Rio. Cores olímpicas. Tudo bem, mais uma vez entendo a intenção. Mas mais uma vez falta buscar uma combinação que ajude no entendimento dos elementos e traga uma atmosfera para a marca. Falta sensibilidade, refinamento, rigor, foco. Pra que tanto degradê, pelamor? Segundo a defesa da marca, “o degradê representa o calor da cidade e o calor humano”.
Pode-se justificar que o conceito de colagem de linguagens seja proposital, que uma olimpíada no Rio poderia incorporar essa miscelânea. Atletas do mundo todo, Babel… espírito exuberante e multi-racial brasileiro, designer sempre é bom de chalalá.
O que resta pra mim é: não funciona. Não é esteticamente coeso, não tem um conceito marcante, não atrai, não gera orgulho - e uma marca dessas teria que criar empatia com a população.
Pelo que entendi, esta marca foi uma primeira proposta desenvolvida para a candidatura do Rio para as Olimpíadas de 2016. A marca que realmente concorreu foi outra, que incluo aqui.
Não ficou muito claro para mim como ocorreu essa substituição. Complemento a conversa incluindo também as demais marcas das cidades concorrentes pelo mundo.
Participem também com suas impressões. Analisar uma marca é um puta exercício pra formarmos um olhar mais crítico com relação às nossas próprias.
O desafio está lançado.
9 Comentários
1 de outubro de 2008 às 13:31
a marca definitiva é sem dúvida melhor do que a do sobrinho-do-dono. Mas tem um excesso tbém, não?! Prá quê mudar as cores no 2016? O pingo do “i” entendi como sendo o sol do Rio, mas e a bolinha azul seria uma exclamação? Gosto bastante do símbolo acima, ficou aconhegante. Adorei o comentário “degradê. pelamor”. É f. realmente quando te obrigam a colocar o degradê. Que funciona bem em muita coisa, mas não em tudo.
1 de outubro de 2008 às 14:36
nem preciso analisar, tudo que foi dito no post é o que eu penso sobre essa marca!
sobre os pacmans futuristas eu não encherguei!!
vi uma borboleta!!! também vi duas vitoria regia (aquela planta do pantanal) e uma agua e um sol???!!!
ou seria as minhas madrugadas de tcc???
1 de outubro de 2008 às 16:06
No do sobrinho do dono, por melhor que fosse a intenção, faltou talento. Concordo que a escolha de: sol, calor, água, Pão de açúcar, tá certinha demais, previsível demais. Mas acho que o talento resolveria isso trabalhando com os mesmos ícones.
A que concorreu vejo 3 corações (homenagem ao Pelé?), ponteira de dardos, dois pingüins de mãos dadas (vou usar todas as tremas que tiver direito enquanto não caiam). Enfim. Não entendi a escolha de rio em minúscula, aquele i de ponta cabeça que mais parece exclamação. Preferiria um logo na vertical, tipo Chicago e Madrid (apesar de também não ter achado grande coisa). Ao que o negócio mesmo é o chalalá. Acho que é nesse momento que usam a arte a favor da comunicação. Ou como tentativa de justificativa. E sabe como é, arte é subjetiva (ao menos, popularmente).
1 de outubro de 2008 às 16:58
Da primeira sem comentários…
Não é apenas pq já existe uma opinião conceito mas não precisa dizer que ficou ruim…
Quanto à segunda, achei beeeem melhorZINHO! Mas acho que é dispensável o excesso na composição do pão-de-açúcar estilizado. Não preciso nem falar que o 16 em outra cor não dá pra entender (o cara devia estar drogado). Pra falar a verdade acho que se o 2016 fosse todo da mesma cor seria mais agradável visualmente e daria mais harmonia já que é o mesmo número (a não ser que fosse a 16ª edição dos jogos).
Eu estilizaria o cristo que é bem mais bacana, daria um resultado bem mais simples em questão de linhas, formas e cores, e ainda por cima é (eu acho) uma das 7 maravilhas do mundo.
É isso… ![]()
Visitem meu flickr e comentem!
http://www.flickr.com/people/felipenavarro/
2 de outubro de 2008 às 1:13
O logo oficial tá parecendo duas bocas de fantoche cantando “maná maná”.
a fonte achei bacana, leve.. mas o cara que criou, bolou o 16 encaixando com o “cidade aspirante”. nao pensou no lettering sem aquilo, e imagino que se o Rio for eleito, ele vai ter q trocar a informação e vai ter que dar uma “enjambrada” senao vai ficar perdidao.
em relação as cores eu entendi que sao as 3 cores da bandeira, mas realmente ratiaram no 16 maior q tudo.
sei lá.. esse “arco-da-lapa_borboleta_semi-trevo_pao-de-açucar_coraçao³_maná-maná_pacman²” nao me agradou muito nao..
nao tem uma harmonia no todo.
mas to com muito sono pra fazer uma analise semiótica agora..
abraço na palêta.
10 de outubro de 2008 às 11:20
Sincronicidade total. ou será que copiaram o da UCS, meu deus?
Eu gosto do coração-pão-de açúcar. A gente sempre vai poder encontrar associações engraçadinhas ad infinitum, mas acho que é contemporâneo, bem-humorado, macio, acolhedor. Um jeito graficamente inovador de falar de sol, natureza e mar, e um pouco Burle Marx, referência sempre bem-vinda pra representar o Brasil.
Concordo: os pingos de cor diferente nos is são desnecessários, faltou olhar de novo e dar aquela enxugada nas legalzices.
Não tenho nada contra o destaque no 16 da forma como foi feita, é uma informação de rápida captação, mais importante que o 2000.
Rafa, quanto ao uso da marca depois de escolhida (e a retirada do “cidade candidata”), isso não iria acontecer anyway. A marca é mesmo só pra candidatura. Pros jogos seria feita outra.




1 de outubro de 2008 às 11:43
A marca definitiva parece um pacman futurista de duas bocas.
Ou talvez isso tudo seja efeito das duas noites mal dormidas de maratona.