Por Solon Brochado*

Todo mundo aqui deve ter, pelo menos, um grande sonho. Ganhar na
loteria e passar o resto da vida tomando martini na beira da praia em
Cancún. Tocar “Through the Fire and Flames” no nível expert
do Guitar Hero 3 sem errar uma nota. Ganhar um monte de leões em Cannes, fundar uma agência do
caralho e ser a capa da Creativity Online já no seu primeiro ano de trabalho.

Mas só ir lá, fazer e concretizar seu sonho, não quer dizer que alguém vai dar bola. Que não vão mais dizer que você é um louco fadado ao fracasso. Que não vão tentar lhe passar a perna e torcer pelo seu fim. Ou seja, que você não vai ter que continuar indo lá e fazendo pelo resto dos seus dias, para manter seu sonho de pé.

João Augusto Conrado do Amaral Gurgel sabia bem o que era isso. Garanto que, há algumas semanas, quase todo mundo que viu a notícia de sua morte ou não deu bola, ou lembrou de alguma piada com a marca de carros que ele fundou na década de 70.

E no entanto, ele no mínimo merecia uma música do Vitor Ramil. Primeiro, pela enormidade do que fez: construir uma fábrica de carros 100% brasileiros, em plena ditadura, utilizando tecnologias desenvolvidas por ele próprio - a carroceria e o chassi de fibra de vidro (ou plasteel) e o sistema de bloqueamento seletivo das
rodas para evitar atolamentos.

Mais do que isso, por ter feito carros que, por mais bizarros e feios que possam parecer atualmente, tinham uma lógica que 30 anos depois está sendo usada para vender crossovers (esses carros em versão Adventure, Cross, Trail, etc que se vê pela ruas) país afora: um automóvel que pudesse encarar as ruas esburacadas, as estradas de terra (lembrem-se que a Freeway nem existia na época, por exemplo) e não enferrujasse.

E se alguém quiser saber o quanto ele conseguiu alcançar esse objetivo, é só olhar pelas ruas e ver quantos Gurgel ainda estão andando por aí, e pensar que apenas 45 mil deles foram construídos ao
longo dos 25 anos da empresa (para comparar, em coisa de 30 anos a VW já produziu mais de 25 milhões de unidades do Golf mundo afora).

Ele se aproveitou do protecionismo econômico da ditadura? Certamente que sim, bem como de bons contratos para fornecer jipes ao exército brasileiro. Ele foi culpado por não ter conseguido modernizar a
empresa diante da abertura de mercado patrocinada pelo governo Collor? Talvez, embora haja muita discussão sobre o assunto (a Embraer, hoje a terceira maior exportadora do Brasil, não teria sobrevivido à mesma época sem a injeção de muito dinheiro pós-privatização).

Mas é indiscutível que João do Amaral Gurgel é um cara que foi lá, fez e continuou fazendo enquanto conseguiu. E que, ainda assim, morreu sendo mais lembrado como motivo de chacota ou de fracasso do que como o empresário sonhador e batalhador que foi.

Com sua morte, como costuma ser de praxe, algumas homenagens começam a ser desvendadas. Por um post no blog do Fábio Seixas, na Folha Online, por exemplo, acabei descobrindo este belo documentário sobre a vida de Gurgel feito por alunos da Escola de Comunicação da USP:

Depois disso tudo, posso contar pra vocês qual é um dos meus grandes
sonhos: ter grana suficiente para comprar e recuperar um Gurgel
Carajás TR Diesel, o primeiro e mais divertido carro que já tive. Quem
sabe, até lá, isso deixe de ser motivo de chacota para os meus amigos.

***

* Solon Brochado é jornalista formado pela Fabico/UFRGS em 2006, atualmente trabalhando com planejamento em mídias sociais na CUBOCC, com passagem pela LiveAD e W3Haus, nerd e ex-dono de um Gurgel X12 TR e de um Carajás TR Diesel. Escreve nos blogs Roda Presa e Meio Social.

O texto acima não foi tirado de lugar nenhum. É uma contribuição exclusiva do Solon para o Blog da Perestroika.

Postado em 19 de fevereiro de 2009 às 17:31
Arquivado na categoria: Perestroika
Você também pode fazer um comentário ou acompanhar pelo seu próprio site.

14 Comentários

Mari Hirt

Genial! Tenho um Gurgel Supermini todo errado e acho ele lindo! É o meu 3- Gurgel!

Portaluppi

“O texto acima não foi tirado de lugar nenhum. É uma contribuição exclusiva do Solon para o Blog da Perestroika.”

NOSSA!!!!!

Quanto networking, qta exclusividade, qta honra…

Vcs são caras bons pra caralho, mas enchem os colhoes alheios com tanto autoelogio embutido.

Solon

João: eu não sabia o quão próximos tinham sido os lançamentos. de toda forma, eu me referia não ao lançamento do Xavante e sim ao conceito de carro para qualquer situação no qual ele foi baseado.

mas valeu por confirmar a data. eu cheguei a dar uma procurada, mas não encontrei nenhuma fonte confiável.

Portaluppi

hmm. e fazem moderação tendenciosa… nem sei pq achei q não…

Felipe

“Vcs são caras bons pra caralho, mas enchem os colhoes alheios com tanto autoelogio embutido.”

NOSSA!!!!

Quanta ironia, qto sarcasmo, que malvado que ele é….

Portaluppi, a gente já está se acostumando com umas visitas como a tua. Gente que aparece aqui destilando ironia, de maneira meio gratuita, sem querer estabelecer um diálogo de verdade. Só meio que sendo brabinho.

Fato que é reforçado pelo fato dessas pessoas não se identificarem, não colocarem e-mail, nem nada.

Mas isso faz parte do ofício. Então lá vamos nós, comentar os comentários:

Primeiro que não tem moderação tendenciosa. Todos os comentários entram. Quer dizer, todos até certo ponto. Mas enfim, tem um anti-spam que segura todos os comentários quando o autor escreve pela primeira vez. Depois que a gente autoriza, começa a entrar sempre. Então, pode ser por isso que o teu comentário demorou a entrar.

Segundo: dizer que a contribuição é inédita e exclusiva não é chega a ser um auto-elogio. É como se trata do texto de um autor que nunca tinha contribuído para o nosso blog e, que mais que isso, escreve em outros, queríamos deixar claro que não simplesmente replicamos o texto de outro lugar.

E mostrar que o nosso blog tem material exclusivo nem chega a ser auto-elogio. Porque ser inédito não é sinônimo de ser bom. Nesse caso, além de inédito, é muito bom.

É só isso.

Tiago

Portaluppi, estou de férias, mas continuo acompanhando o blog de longe. E como o teu comentário me atingiu também, resolvi responder. Mesmo que o Felipe já tenha cumprido o protocolo.

Minha opinião? Cara, tu tá certo. A gente tem uma tendência a se auto-elogiar, sim. Inclusive, há um tempo, pensei em escrever um post fazendo um mea culpa sobre esse assunto.

Não sei bem se esse é um vício publicitário (por 10 anos, eu e o Felipe escrevemos textos que “auto-elogiavam” os produtos).

Também pode ser um pouco de construção de personalidade. Afinal, ainda somos uma empresa nova, que está encontrando um espaço em meio a tantos players consagrados. Como muita gente ainda não nos conhece (e o Blog tem novos leitores diariamente), nós temos que constantemente ficar reforçando algumas mensagens (o que é a Perestroika, o que é o Blog, quem são nossos parceiros, como a gente se posiciona, etc, etc, etc). Soa chato, principalmente para quem acompanha o Blog há mais tempo. Parece repetitivo. Parece até arrogante. Mas, infelizmente, é um mal necessário.

Também acho que a gente ainda está um pouco deslumbrado com tudo o que aconteceu (e com td o que vem acontecendo) com a Perestroika. Fica quase impossível não transferir isso para o texto. A gente se empolga com o nosso crescimento e repassa isso para os posts.

Mas quer saber o que eu realmente acho? Todo empresário acredita que tem um produto do caralho. Assim como todo pai fala com orgulho do filho. No nosso caso, não seria diferente.

E como o Blog da Perestroika fala, basicamente, sobre notícias relacionadas à Perestroika, é quase impossível fugir do auto-elogio.

É muito difícil ter isenção quando se é a origem e o fim da notícia. Quando se é conteúdo e mídia.

Vai por mim, cara: não é nariz empinado. É só uma mistura de orgulho e utopia, com um pouquinho de confiança no próprio taco.

Abração.

tg

Tiago

Solon, excelente o post. Saudades do Carajás.

tg

admin

Portaluppi, beleza? Eu (Marcio) autorizei o teu comment assim que li (pelo celular mesmo, tanto que nem comentei pq não estava em casa).

O Felipe explicou: existe um delay por causa dos spams. Precisamos apertar num botão dando OK pra publicar. E não ficamos o dia todo em cima do blog pra isso acontecer online. Mas nunca deixamos de autorizar nada, não, cara.

Só uma coisa pra tu pensar: a gente escreve de peito aberto. Quem quer meter pau, vem depois e descasca. Faz parte. É o jogo.

Evidente que, como a maioria se identifica com o que escrevemos, rolam mais coisas positivas do que negativas. Mas adoramos críticas.

Mas queria te pedir: sai do anonimato, rapaz. Não tem motivo algum pra tu não poder dar a tua opinião deixando eu, o Felipe, o Tiago e o Rafa, e todos os demais que acessam o blog saberem quem tu é. Né?! Fica difícil te levar a sério.

Sem falar que fica meio cagão. Não combina com gremista.

Portaluppi

Cagão é teu pai!

Modera essa agora!

Portaluppi

Felipe:
Inédito e exclusivo não é elogio?
Esse nunca tirou um cabaço…

Tiago:
Podecrer cara, tua resposta sensata seria suficiente para elucidar a questão. Foda-se meu anonimato, não to aqui pedindo emprego nem nada, só acompanho o blog faz bastante tempo e essa punheta anda realmente me enchendo o saco.

Márcio:
Cagão é teu pai!
Modera essa agora malandro!

admin

Portaluppi:

Aqui na Perestroika, a gente curte gente que não fica só nos bajulando. A gente curte gente com opinião. Porque no mundo da criatividade, é impossível agradar todo mundo. O Nizan mesmo já disse: propaganda boa é a que ofende alguém.

A gente curte gente que vai lá e faz. E tu foi lá e fez, cara. De forma polêmica? Sim. Mas fez.

Por isso, queremos premiar essa tua ousadia com uma bolsa da Perestroika. Essa tua postura realmente nos impressionou e merece uma recompensa.

Entra em contato com a gente o quanto antes. Um abraço e parabéns. O mundo precisa de caras como tu.

Portaluppi

em tempo:
http://www.perestroika.com.br/2008/09/04/perestroika-vs-fernando/

é o que me faz pensar que talvez vcs nao estejam tirando onda com a minha cara.
é isso ou a idéia é me desmoralizar pq eu ofendi o betão?
no caso da segunda opção, leva a mal não. foi só pra não perder a piada.

Portaluppi

Tô ligando agora mesmo pra aí.
Valeu!

E já que tava todo mundo querendo saber, aí vou eu: Carlos Portaluppi.

Faça um comentário