Por J.P. Flores

Por que não? Essa pergunta tem me ocorrido há algum tempo a cada momento em que a idéia de fazer algo é confrontada com um questionamento em relação à sua objetividade, e ela ganha mais importância quando o questionamento contrário vem de outra pessoa. Às vezes chega a ser irritante quando se ouve aquele ‘Por quê?’ ou ‘Para que?’ que soa não curioso, mas crítico e, muitas vezes, burro.

Existem incontáveis razões que nos levam a decidir por determinadas atitudes e experimentalismos, como certamente também há um equivalente em número indefinido de motivos para que não os realizemos; a idéia de rachar o crânio de uma pessoa com uma pedra para testar a dureza da pedra, por exemplo, é facilmente debatida pela noção de respeito à integridade física de outrem. Por outro lado, se eu decidir agora me embrenhar de bermuda e chinelo pelos matagais da serra gaúcha, às vésperas do inverno, apenas para desafiar a e aumentar minha resistência ao frio, não há motivos reais e irreparáveis para não o fazer.

Recentemente percebi que a pergunta se estende além de ímpetos que testemunhei ou executei pessoalmente, servindo também para (tentar) explicar a um ouvinte uma atividade alheia. No caso, um amigo me falava sobre experimentos realizados com macacos para descobrir o alcance de sua capacidade de comunicação. O assunto veio à pauta porque discutíamos linguagem e idiomas. Meu amigo mencionou uma experiência na qual um macaco explicou, por gestos, sua história até o encontro com os que o estudavam; o momento em que estava em seu meio natural, a chegada dos homens que o capturariam, as armas que estes carregavam, a captura em si, etc. Sempre que discutíamos algum exemplo do tipo, o figurante que inconvenientemente sentara ao meu lado àquela mesa de bar perguntava: “E pra que ficar estudando animais, essas criaturas inferiores a nós?”. “E por que não estudá-las?”, eu respondia, “Por que não aprender algo?”.

Era inútil tentar explicar as possíveis futuras aplicações que um estudo desse tipo teria para a compreensão de nosso próprio sistema linguístico a alguém que espera que dois amigos sentados em uma mesa de bar interrompam sua conversa para discutir Paulo Coelho. Em nota: não estou sugerindo que ler ou criticar Paulo Coelho seja totalmente inválido, mas a maior parte dos entusiastas de literatura já sabe que ele não é, técnica e criativamente, um grande escritor. A maioria também sabe que nem o pretende ser, tornando qualquer discussão nesse sentido um mero passatempo, se tanto. O que talvez apenas alguns poucos saibam é que quem perde tempo criticando-o apaixonadamente com certeza tem muito menos coisas interessantes a dizer do que o próprio autor. Mas deixemos esse ‘parênteses’ de lado para voltar ao foco.

Sempre fui adepto do conhecimento pelo conhecimento. Acho louvável estudar uma língua estrangeira sem qualquer intenção presente de trabalhar com ela ou visitar uma região em que é idioma comum para ter mais chances de não ser ludibriado por um comerciante qualquer sedento pelo sangue de carniça do turista desavisado, assim como acho válido passar horas lendo artigos de física ou matemática mesmo que só se esteja procurando informações básicas sobre hádrons ou sequência de Finobacci. De fato, às vezes peço para alguns amigos que me enviem seus artigos de Mestrado, independente da área acadêmica deles. Por serem bons amigos, já não molestam minha paciência perguntando o porquê disso.

Tudo leva a algum lugar ou se liga alguma futura criação, de uma forma ou de outra. A experiência que tu tem ao pegar carona com estranhos em uma kombi ou o conhecimento que tu adquire estudando autores famosos da literatura histórico-jornalística, o gosto desagradável na garganta ao tomar uma cerveja logo depois de se entupir de doces, enfim, tudo que vivências ao fazer algo serve, no mínimo, para ser alojado no subconsciente e fazer parte de ti e, portanto, de tudo que vieres a enfrentar ou fazer. Quando olhamos o mundo por fora ou pensamos atemporalmente, nada é realmente desnecessário: tudo resultado em algo mais.

Resultados, portanto, são inerentes a qualquer tipo de atitude, seja ela calculada ou improvisada arbitrariamente, como cutucar um amigo e dizer: “Vamos filmar?”. Aliás, se ele responder “Vamos!” antes de perguntar “Filmar o quê?”, ótimo: tens aí uma ótima dupla de criação. O resultado, no caso, foi uma viagem bate-e-volta a Tapes, algumas cervejas e muitas, muitas risadas; nossas e dos amigos que, ao assistirem, se sentiram também compelidos a fazer passeios do tipo, planejando de última hora e durante o trajeto.

O que quero dizer em exemplos pessoais que aos outros talvez pareçam sem importância é que em tudo que se faz sem questionar tiranamente, isto é, sem que censuremos a nós mesmos, há um produto interessante, seja pro mundo, seja pra quem está realizando uma idéia, ou a quem interessar possa.

Imagine o que tu poderia fazer com um orçamento de milhões para viajar pelo mundo, financiar instituições filantrópicas, filmar um curta, etc. Imagine o que poderia fazer com meia dúzia de pilas no bolso. Garanto que é mais fácil pensar em tudo o que pode fazer com isso do que com o que não pode. Basta ter imaginação e vontade.

Kombis dirigidas por estranhos potencialmente perigosos, moradores de uma pequena cidade te vislumbrando com curiosidade e receio, pessoas assistindo a um vídeo caseiro improvisado achando que foi feito com um roteiro e boa atuação; pequenas diversões em uma sequência que começou com um simples “vamos” e não sofreu o terrível corte do “…mas por quê?”.

Ação e reação, simplesmente. O que quer que alguém faça, pareça bom ou ruim, é no mínimo o precursor de algo. Então se aquela voz na tua cabeça ou o amigo censor te perguntar o motivo de tua idéia inusitada ou apenas inconsequente em primeira instância, corrija com a simples retórica: “Por que não?” e não deixe que a ideia fracasse antes mesmo de começar. Em suma, vai lá e faz.

*****
O texto acima foi escrito por J.P. Flores, aluno da turma de Criação 1: Quebrando a Matrix. O J.P. é um grande cara e tem passado inúmeras noites em claro nos últimos anos, tomando Eisenbahn, fumando Marlboro e, principalmente, escrevendo. Agora, está atrás de alguma editora para apresentar seu trabalho. Quem sabe não sai um livrinho dele em breve?

Postado em 18 de junho de 2009 às 12:36
Arquivado na categoria: Perestroika
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8 Comentários

J.P.

Mas que honra! Ainda deixei escapar ‘a couple of typos’, mas azar.

Desirée

Bom texto e bom gosto na escolha da cerveja.

Lucas von M.B. Silveira

penso exatamente igual..

inclusive, quando resolvi ficar 15 dias em cuba depois que me formei, todos perguntavam: por que cuba? eu nao entendia a pergunta… sempre respondia: por que não cuba? acho q as pessoas pensam q só comunistas podem ir a cuba, sei lá.. mar do caribe, paradisíaco, parte histórica do caralho, povo do caralho, sem propaganda de nada (só do governo), uma realidade diferente de tudo que podemos ver, vários charutos baratos, e o cara vem me perguntar por que cuba? eu que pergunto, por que disney?

Karen

cocordo, JP. a vida pode ser um infinito brainstorm, se a gente estiver disposto a ir deixando as conexões acontecerem nas coisas simples do dia-a-dia. beijos. e aparece pra nos dar um alô antes de virar um escritor famoso e inacessível, ok?

Dai

Posso guardar esse texto na mochila, em muitas cópias, e apenas dá-lo em resposta aos “por quê?” que me aparecerem?

Parabéns, J.P.!

Compartilho.

Sarita OliveIRA

Enviei hoje este post em seu nome, fez sucesso e pediram:
Enviado por: khareis aproximadamente 2 horas atrás
gostei das suas iéias, ou melhor da sua forma inquieta de questionar…
me envie um email: khareis@hotmail.com

Gentileza responder, se puder
Luz e Paz
Sarita

Rafael Zoehler

Interessante e bem escrito.
Também sou vítima dos porquês sarcásticos que estão espalhados por aí. Mas é interessante crescer com esse porquês: algumas vezes os porqueadores estão certos, e a gente tem que abaixar a cabeça e admitir. Irrita, mas no fundo a gente acaba percebendo que é o certo.

J.P.

Exceção:

Quando tu disser “Dá pra quebrar uma garrafa em um soco só sem se machucar.” e um amigo teu retrucar “Mas pra que fazer isso? Ainda vai se cortar todo…”, ouça o amigo.

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