A ESPN lançou há alguns meses uma série interessantíssima: está retransmitindo grandes jogos das Copas do Mundo, com narrações e comentários atuais.
Isso é muito bacana por vários motivos. O primeiro - e mais óbvio - é que você se sente testemunha da história. Foi legal pra caralho olhar o gol de mão do Diego Maradona ali, em tempo real, no meio do jogo. E não numa edição. Mesmo que a narração seja mais descompromissada, em alguns momentos o cérebro desliga e parece que tudo está acontecendo ao vivo mesmo.
A segunda coisa que é muito bacana é conseguir analisar friamente os jogos, sem a emoção do momento. Porque, convenhamos: é difícil ter esse olho clínico numa final de Copa, bêbado, com seus amigos berrando em volta e com um carnaval preparado em caso de vitória do Brasil.
Nessas horas, fica muito claro como nós usamos e abusamos da nossa memória seletiva. A gente fica lá, lembrando como o Brasil humilhou a Alemanha na final de 2002. E esquece da bola na trave quando o jogo ainda estava 0×0. Quando vemos um jogo que já aconteceu, ficamos mais próximos dos acontecimentos e não nos influenciados tanto pelo escore da partida.
Por sinal, futebol é um ambiente onde a memória seletiva se manisfesta bastante. Se temos uma tendência a culpar o árbitro, a gente costuma lembrar dos erros que o juiz comete contra a gente, e não a favor. Se pegamos no pé de determinado jogador, lembramos das jogadas que ele errou, e não as que acertou.
A memória seletiva está por todo lugar. Vai dizer? Você briga com a namorada e, um mês depois, fica pensando em como ela era linda, como era querida, como era carinhosa. Mas você não lembra dos motivos pelos quais você realmente se separou.
Ou você pensa nos tempos de colégio, e lembra de como era legal, como era divertido. Mas se esquece daquela noite em claro que precisou para estudar para a prova de matemática. É mais fácil lembrar da viagem para a Ilha do Mel e menos das manhãs de inverno, que a gente tinha que acordar cedinho para descobrir que a mitocôndria era responsável pela respiração celular.
Pois é. A memória seletiva é um mecanismo da natureza, e temos que aceitar isso. O grande problema é que ela romantiza tudo. As coisas ficam muito mais legais do que eram de verdade.
Eu acredito que isso é um perigo. Assim como o over-pessimista é um cara que, mais cedo ou mais tarde, empaca na vida, o cara que não administra bem a memória seletiva também se quebra. Em vez de aproveitar a oportunidade que tem em mãos, ele fica sempre lamentando a oportunidade que já passou. O cara fica apegado ao passado. Pior: apegado a um passado que, provavelmente, nem era tão bacana assim.
A oportunidade que a gente tem hoje é a mais importante da nossa vida. O job que você tem em mãos hoje é o que interessa. Porque é ele que você tem poder de mudar, interferir, mexer. O que passou, passou.
***
Nos tempos de Competence, quando rolava um momentinho de folga, eu incorporava um personagem reacionário que tinha como bordão Bom era no tempo dos militares. Ele dizia bobagens como:
Bom era no tempo dos militares, que tinha aula de Moral e Cívica, que os alunos cantavam o hino todo dia de manhã. Hoje em dia eles têm aulas de artes, aula de música, daí começam a ter ideia, querem virar arquiteto, designer. Ou seja: profissão de maconheiro..
ou
Bom era no tempo dos militares, que não tinha gente vagabundeando na rua. Tava na rua à toa, ia preso. Agora a juventude faz até festa na rua, essas tal de rave. Isso é motivo para se drogar. Isso é festa de maconheiro..
Piadinhas de lado, pense comigo: tem gente que tem saudade do tempo dos militares. E não é pouca gente. Tem alguma dúvida de que a memória seletiva atrapalha?
11 Comentários
7 de junho de 2010 às 11:03
“A gente fica lá, lembrando como o Brasil humilhou a Alemanha na final de 2006.”
O certo seria: final de 2002.
Em 2006 nós fomos eliminados pela Franças nas quartas-de-final e a Itália foi campeão em cima da França.
Corrige ali.
Abraços
7 de junho de 2010 às 23:18
tri massa o texto…mas… essa para de memória seletiva é coisa de maconheiro…
8 de junho de 2010 às 11:40
Brasil x Alemanha foi a final da Copa de 2002. Em 2006 dançamos nas quartas, contra a França, gol do Henry.
9 de junho de 2010 às 2:45
concordo com o texto, mas tem umas bizarrices que nem freud explica..
vai dizer que tu não lembra duma frase totalmente idiota e sem sentido que uma tia-avó tua disse no natal de 1992? vai dizer que tu não lembra de uma situação totalmente corriqueira ocorrida há anos atrás, que não faz o menor sentido lembrar? e muitas vezes esquecemos de coisas importantes..
a memória seletiva as vezes sequela afú.. seleciona uns lances a esmo..
por favor, digam que concordam pra eu não me sentir o retardado da galera.. haha!
9 de junho de 2010 às 9:30
Ô, muito bom o texto, finalmente alguém respondeu uma pergunta que fazia para mim: “os problemas não existiam ou sou eu que não lembro?”
acho que por ser natural, a memória descritiva faz a gente lembrar das coisas boas, ou melhores, para que não nos tornemos seres - mais - reclamões. se com poucos - atuais - problemas estamos sempre reclamando.
então, no fim, ela pode atrapalhar ou não… é que nem uma mochila cheia de coisas pendurada nas costas que temos que carregar. elas podem ser úteis ou não.
9 de junho de 2010 às 16:34
e como diz o sertanejo aquele na música do Rappa: a memória é uma ilha de edição.
é por aí, heheh
19 de junho de 2010 às 2:01
É por isso que os comentaristas sempre dizem que o nível técnico da Copa que está acontecendo é mais baixo que o das anteriores. Que aprimeira rodada foi horrível, etc.
Início de Copa é sempre uma merda. E os bons jogos ou bons momentos é que ficam na memória como o “tudo” de maravilhoso que aconteceu no passado. É como o filme que dá origem à uma trilogia, por ex., quando assistimos o segundo e o terceiro, invariavelmente achamos o primeiro melhor. Depois a gente compara com mais tempo e percebe que, na real, o Império Contra-ataca foi melhor do que o Star Wars.

7 de junho de 2010 às 3:32
Bom mesmo era no tempo dos militares, que tinha censura prévia e a gente não leria um post desse às 3 da manhã. Isso é texto de maconheiro.