*Por Israel Mendes, Sócio da Aquiris Game Experience, professor do MTHFCKR e do curso que a Perestroika está abrindo em SP em breve.

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Como Game Designer, tenho o hábito de olhar o mundo do ponto de vista de um desenvolvedor de jogos. Faço isso num bar, no trânsito, numa fila, em casa. Tenho inclusive uma aula que dou no curso MTHFCKR aqui da @perestroika em que, entre outras questões discutidas, em um determinado momento analiso curiosidades de alguns jogos. Tratam-se de dinâmicas, nuances de regras, balanceamentos, mecânicas de gameplay, etc. E uma dessas análises é justamente o assunto que está sendo matéria em todos os jornais de hoje, após os erros das arbitragens de Alemanha x Inglaterra e Argentina x México revelados pela dedo-dura Super Câmera Lenta.

Estou falando da polêmica: Juiz de Futebol x Tecnologia.

Convido a todos para uma breve reflexão mais estrutural desse caso do ponto de vista de Game Design.

Se buscarmos as definições para o que é JOGO, um momento comum de todas é que jogo é um sistema dinâmico. Ou seja, um sistema em constante alteração das variáveis que influenciam a sua mecânica-mestre. É algo não-linear, mas com um grau controlado de imprevisibilidade.

Essas variáveis podem ser: cavalos, bispos, dados, roletas, cartas, tabuleiros ou, no caso do futebol, jogadores, campo, bola, tempo, etc. Existem ainda alguns controladores do balanceamento que garantem a aplicação das regras e que determinam a cadência do jogo. Exemplos no futebol: o juiz, os cartões, as linhas laterais, o apito, a linha de escanteio, primeiro e segundo tempos, pênaltis, etc.

A saber: o Jogo Futebol é como o Par-ou-Ímpar ou qualquer outro. Obviamente muito mais complexo, como muito mais regras e limites envolvidos. Mas enquanto sistema dinâmico, obedece às mesmas lógicas. E segundo seu balanceamento, ao juiz cabe o papel de autoridade isenta e aplicadora daquilo que é certo ou errado dentro de campo.

Se o juiz pode errar, então já existe aí um contrassenso. Arnaldo César Coelho, por exemplo, disse que o erro grave tem que ser corrigido, não pode acontecer. Já o erro leve é convivível. Entendo a análise dele: o futebol é um esporte quase intocável, tem uma mística enorme ao seu redor, fora todas as importâncias comerciais. Acho que é assim que a maioria tem exergado até então. Mas estruturalmente, entendendo o futebol como um jogo igual a qualquer outro.

Regras são regras. E segundo elas: erros são erros.

Existe ainda a corrente que diz que os jogadores podem errar. Portanto o juiz também pode. Mas na teoria somente os jogadores podem errar. Pois seus erros já possuem na própria dinâmica e balanceamento do jogo seus respectivos ônus: a vantagem direta ou indireta para o adversário. Ou seja, a punição e o ônus dos erros de um time afetam a dinâmica provendo bônus ao outro time. Isso é mais que previsto, é planejado, é proposital para enriquecer o gameplay.

Mas e o juiz? Pode errar? Não.

Afora seu papel que não prevê, segundo as regras, o erro, existe ainda o agravante de que ele não possui ônus. Apesar de muitas vezes ser punido e ficar “na geladeira” por alguns jogos ou torneios, isso acontece depois da partida que foi influenciada pelo seu erro. Ou seja, a dinâmica dessa partida é permanentemente prejudicada.

Se errar é humano, de novo: então, estruturalmente, não pode um juiz (um humano) ocupar a posição de decidir o que é certo ou errado. Ou é preciso que se esmiuce quais erros são permitidos. Estabeleça-se a gordura e os limites. Em outras palavras, defina-se melhor: erro!

Soa estranho, soa utópico. Mas à cadência do jogo soa exato, seguro e, principalmente, justo.

Excluo aqui, obviamente, as análises interpretativas, pois essas sim estão previstas em regulamento e daí cabe ao juiz decidir, segundo seu julgamento, o veredicto. Mas o que se viu hoje foi um gol do Lampard pela Inglaterra uns 50cm legítimo, porém anulado. E também um gol do Tevez em impedimento pela Argentina, neste caso, erradamente validado.

Raciocínio exposto, encerro então dizendo que quando o juiz erra, ele se torna um BUG no sistema. No sistema dinâmico chamado Jogo de Futebol.

Um bug tal qual ao de um software que, apesar da previsão de funcionamento, oscila entre o correto e o incorreto de maneira randômica. Existem precedentes subjetivos agindo em questões exatas e não-interpretativas. E isso é nocivo para o gameplay do Futebol. Para qualquer gameplay, aliás.

Postado em 27 de junho de 2010 às 20:30
Arquivado na categoria: Perestroika
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14 Comentários

Lucas von M.B. Silveira

Cara, gostei da tua análise. Mas discordo do âmago da questão.

Para os games com os quais tu trabalhas, ou jogos mais frios, concordo que não pode haver erro. Mas o futebol… Bah, o futebol é o futebol.

Até o erro é legal. Vira história. Faz parte da tua sorte. A mesma sorte que faz a bola bater na trave e sair ou entrar é quem determina se o bandeirinha verá o impedimento ou não.

Já pensei o contrário. Já defendi câmeras auxiliando árbitro, mas, quer saber? Deixa assim. Essas chuteiras amarelas, rosas e sei-lá-que-cor-mais já são o suprassumo da modernice em excesso.

Só não pode rolar falcatrua. E esse é o perigo quando se trata de seres-humanos no comando. Vide garfeada no Inter em 2005. Aí obviamente já sou contra. Mas o erro genuíno é bonito. Claro que quando é contra o Grêmio eu viro bicho e quero matar o filho-da-puta-sem-vergonha-mau-caráter que tá nos roubando. Mas faz parte. É legal ter esse tipo de ódio. Deve ser até sadio. Talvez amanhã ele erre a favor. Ou contra o Inter, que é melhor ainda, hehe.

O gol de mão do Maradona em 86. La mano de Diós. Os argentinos não ergueram o caneco só porque o juíz errou. O Maradona foi malandro, foi esperto. Ludibriar a arbitragem também é um dom. Um talento que o futebol exige. Faz parte do match. E eu acho fantásticas essas histórias. Talvez até mais do que simples golaços antológicos.

Volta e meia eu jogo FIFA. Esse jogo me ajudou a ser mais ponderado e imparcial. Quando percebi que eu achava que tava sendo roubado pela arbitragem do FIFA, me dei conta que talvez eu fosse um tanto totalmente-mega-parcial ao analisar árbitros em jogos do Grêmio. Hoje consigo ver claramente erros pró e contra o tricolor. E torço para que um dia a EA Sports lance um FIFA que tenha erros de arbitragem e invasão de campo.

Abraço!

Leo

Mas Lucas, não deixar a tecnologia entrar no futebol é justamente dar margem pra ação nociva de todas as máfias de apito, grupos milionários de apostas e “empresários russos” comprando clubes.

O futebol vai continuar com as coisas do futebol se entrar a tecnologia: a bola na trave, o frango, a torcida, a injustiça de alguns resultados, tudo vai seguir lá. Só vai ter menos espaço para a falcatrua.

Israel Mendes

Pois é, Lucas. Como falei, o seu ponto de vista é o da maioria. O futebol é o futebol. Tente racionalizar e vai ver que o ponto de vista do jogo pura e simplesmente coloca em xeque essas questões tão abertas, como “O erro do juiz faz parte do jogo”.

As tais teorias conspiratórias que o Leo fala, se não existem de verdade, no mínimo ganham força como teorias enquanto essas margens forem amplas!

Sem contar que muita gente perderia o emprego caso objetivassem mais o futebol…

Leo

Nesse caso, não é nem teoria da conspiração, Israel. A Juventus já foi rebaixada na Itália por causa de compra de resultados, máfias de apostas etc. Esses dias estourou um escândalo parecido no leste europeu, e já recaíram suspeitas sobre o campeonato inglês.

E tudo isso seria muito minimizado com tecnologia.

Panichi

Na minha opinião, quanto mais mecanizarmos o esporte, menos esporte ele fica. O árbitro não por acaso é chamado de juiz. Ele julga. Julgamento, por si só, já é um substantivo carregado de abstração. O julgamento é uma conclusão baseada na percepção dos fatos, e a percepção por si só já é falha, visto que é uma interpretação pessoal do indivíduo.

Sou a favor de dispositivos eletrônicos e disputas onde a precisão impera, como lutas de contato (não de submissão), tênis, corridas. Afinal, o olho humano já não é páreo para as velocidades impostas nestes esportes.

Mas não no futebol. Casos como o ocorrido no jogo da Inglaterra não são tão frequentes que acabem por descredibilizar o juiz enquanto autoridade do jogo. E gol de impedimento… bem, o problema é da maldita regra do impedimento.

Sou a favor de que, ao invés de colocarmos câmeras pelo campo, sensores nas traves, linhas, bola, chuteiras, caneleiras, coloquem 2 árbitros em campo, que confabulem a cada lance duvidoso.

Senão, tirem de uma vez o árbitro de dentro do gramado mesmo e o botem sentadinho assistindo à televisão.

Por fim, corrupção existe em todos os âmbitos, profissões e atividades econômicas desde que o homem existe. Se não puderem comprar os árbitros, comprarão os jogadores adversários, os técnicos, preparadores físicos, hackearão os sensores, assaltarão à mão armada cada responsável por qualquer quantia em dinheiro. Isso sim não tem como mudar.

Lucas von M.B. Silveira

Concordo com o Panichi..

E vocês viram Espanha x Portugal? O gol da Espanha estava milimetricamente impedido. Algo possível de se notar apenas após minuciosa e esmerada análise dos vídeos, com diversos ângulos, perspectivas e velocidades.

Imaginem que chatice a bola ter entrado e “PARA TUDO. Vamos ver o vídeo agora e em breve a confirmação de gol ou impedimento”. Seria um saco. E até injusto, diria eu. Foi gol, tchau Portugal. Ponto final.

O legal é estufar a rede e olhar pro juizão, pra sair pro abraço ou pra reclamação, no ato, no impulso, na euforia do lance.

E como bem disse o amigo acima, falcatrua rola sempre e por mais que mudem as regras, seguirá rolando. O problema não são as regras, nema (falta de) tecnologia. O problema é o ser humano. E não o erro do ser humano, mas a falta de caráter de uns. E isso, infelizmente, acho meio incontornável.

leo

Podendo ser minimizada a falcatrua, melhor. É muito fácil comprar um, dois ou três juízes. Difícil é comprar vinte e dois jogadores.

Sem falar que eu acho meio fatalista a coisa do “não adianta, a falcatrua vai existir sempre.” Existem países com nível quase zero de corrupção porque criaram mecanismos para isso. Se é possível em um país, é possível em um esporte.

Rech

Panichi, concordo plenamente com tua definição de julgamento. Acho que, sim, é um substantivo cheio de abstrações e que permite diversas interpretações de um mesmo fato. Acho, inclusive, que essa é uma das coisas que faz do futebol um esporte tão divertido.

Mas também acredito que faltou um grande porém nessa definição, que é o estabelecimento de condições pra que o julgamento seja feito.
Podemos pegar o exemplo de um tribunal. Nele, o julgamento é, como no futebol, baseado em uma série de regras, as Leis. Temos também a autonomia do profissional preparado pra executar o julgamento. Assim como a possibilidade de suborno por uma das partes interessadas.

A principal diferença é a série de condições que um juíz de tribunal tem versus as de um juíz de futebol. Em um dos caso, o legal, o juíz tem tempo, recursos e assessoria suficiente pra emitir um parecer efetivo e, na maioria dos casos, imparcial. No campo, o juíz não tem tantas mamatas. Ele precisa decidir rapidamente, muitas vezes longe do ângulo de visão ideal e, muitas outras, longe de ter assessores competentes.

A tecnologia, qualquer que fosse, só aumentaria o grau de precisão desse julgamento, nunca o substituiria. Tornaria o trabalho e a vida do juíz mais fácil a medida em que dá mais ferramentas pra que ele execute a função que está sendo pago pra fazer.
Imagine como seria um tribunal onde o juíz precisasse penalizar ou inocentar o réu em questão de minutos?

E quanto à falcatrua, concordo com o Léo: se é possível evitar em sistemas muito mais copmlexos que o futebol, qual o problema de levar isso pro campo?

O futebol já deixou de ser romântico fora do campo. Precisa deixar de ser romântico entre as quatro linhas também.

Panichi

Ah meu, sei lá…

Lucas von M.B. Silveira

O foda é que a falcatrua tá nos detalhes. Tá, de repente não seria má ideia mesmo alguém monitorando a partida. Tipo o gol da Inglaterra. A bola entrou 34km dentro do gol. Beleza, avisem ao árbitro que entrou através do ponto eletrônico, não seria o fim do mundo. Até daria o braço a torcer nesses casos.

Só que um árbitro condicionado (ou ladrão mesmo) não prejudica um time apenas em lances gigantescos. O problema não são os erros crassos. Diria até que esses são mais raros.

Um juíz falcatrua inverte 500 faltinhas no meio-campo, desestabiliza emocionalmente jogadores de algum time (com palavras e/ou atitudes), transforma tiro de meta em escanteio… Enfim, coisinhas simples que mudam todo um jogo. E ninguém vai parar o jogo pra dizer que aquele empurrãozinho no meio-campo foi falta. Se o juíz não der, azar, paciência.

Israel Mendes

Gente só cuidem para não misturar as questões.

Existe o juiz e as regras.

As regras são maiores que o juiz. Elas são do jogo! O juiz é subalterno do texto das regras. Ele nao manda nada, ele obedece. A não ser que a regra dê essa abertura.

Por exemplo: existem as questões claras e objetivas e as interpretativas.

As regras preveem que o juiz julgue segundo sua visão SOMENTE alguns lances. Existem outros que são objetivos. Passou da linha de gol, é gol e ponto! Nesses casos, a tecnologia pode ser bem-vinda. Nas questões interpretativas não! Aí sim, segue valendo a interpretação do juiz, sua boa-fé, etc, etc.

A tecnologia interferiria apenas nos erros que ferissem as regras objetivas. O resto seguiria sendo de responsabilidade dos juízes.

Rodrigo Hoffmann

Cara, nem vou dar a minha opinião, pois concordo com a maioria das opiniões, que discordam ao mesmo tempo em que se complementam.

Apenas queria dizer que o artigo é muito bom e, consequentemente, deu sequencia à uma discussão muito boa.

Não tinha acompanhado ainda uma discussão de futebol tão inteligente em cima de uma assunto tão polêmico e que, na minha opinião, é quase uma discussão cultural.

Pedro Daltro

post do caralho… e maneiro que ontem eu li um texto sobre a ida do lebron james para o Miami Heats escrito por um professor de “game theory”, disciplina do cuirso de Política de uma universidade gringa… segue um trecho: “by allowing Bosh and Wade to make their decisions first, did LeBron possibly get himself into a situation where he ended up with a sub-optimal outcome? If so, it would certainly put that ESPN special in a whole new light - not just obnoxious, but possibly even counter-productive. By committing himself to a specific timetable - and remember, the demands of the ESPN show called for absolute secrecy regarding his decision - he gave Wade and Bosh a chance to both (1) move first and (2) have a little time to think through the strategic value of moving first. So in the end, the need for the King to play to the public may have led to the King himself getting played - surely not the first time in history this has happened!”

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