Perestroika

Barcelona: um reflexo da evolução das redes.

17 de janeiro de 2012

Tudo começou quando estava vendo um vídeo das melhores jogadas coletivas do Barcelona na temporada 2010/2011. Como todos sabem, o Barça é uma máquina de triturar adversários. E, apesar de ter Messi, o melhor jogador do mundo, apesar da dobradinha de craques Xavi e Iniesta, apesar de um elenco de supestars, é um time que se destaca pelo futebol coletivo.

Foi quando postei no meu Facebok: será que o Barcelona é reflexo no futebol de um mundo cada vez mais colaborativo e menos individual?

Começou uma ótima discussão, e meu amigo Igor Oliveira comentou: “‎Augusto de Franco costuma dizer o mesmo sobre o Barça.”.

Augusto de Franco é uma dos maiores especialistas de pensamento de rede no mundo. Através dele que conheci o diagrama de Paul Baran, que uso constantemente nas minhas aulas e palestras.

Depois, o próprio Igor complementou. “A sociedade é uma rede. Sempre foi. A internet apenas explicitou essa anatomia da sociedade. Agora podemos enxergar a nossa rede de contatos (rede social), que sempre existiu, em plataformas como o Facebook. Quanto mais descentralizadas e distribuídas são as organizações (inclusive os times de futebol), maior o fluxo e a sustentabilidade dessas estruturas. O segredo do Barça, segundo alguns, é a alta conectividade entre os atletas, que garante uma imprevisibilidade e um toque de bola rápido. No fim das contas, não estamos falando de internet, mas de redes.”

Essa é a grande confusão que as pessoas fazem. E quem disse isso não fui eu, mas o próprio Augusto de Franco. “Não se pode confundir os sites das redes com as redes”. Clap, clap, clap.

A rede existe independente de Facebook, Twitter ou internet. Ou, como gosto de dizer, para causar um pouco mais de impacto: a internet não é uma tecnologia, mas um comportamento.

Mas aí, você pode dizer que essa minha visão é uma bobagem, já que o Barcelona se baseia no estilo de futebol imortalizado pela Holanda de 74. Um time completamente colaborativo que revolucionou o esporte. A semente começou com Johan Cruyff, capitão holandês que levou para o Barcelona a sua visão de futebol total. O craque assumiu como técnico do time catalão do início da década de 90 e implementou sua política em todas as divisões do clube, do profissional à base.

Pois está justamente aí a feliz coincidência. A colaboratividade vista na Holanda de 74, que depois foi ser revisitada no início de 90 e que hoje se consolida nos anos 2010, é um reflexo cristalino da história das redes.

Veja o caso da internet. Pouca gente sabe, mas os seus primórdios são do meio da década de 50. Coincidência ou não, em 1974, temos um fato muito importante: a criação do TCP/IP (Transmission Control Protocol / Internet Protocol). Ele foi o responsável por padronizar os protocolos entre as redes e permitir que elas conversassem entre si.

Coincidência: justamente em 1974, ano da Laranja Mecânica.

Pois tem mais. No início da década de 90 (em 92, mais precisamente), Johan Cruyff empresta a sua visão colaborativa ao Barcelona. E é através desse leitura que o Barça ganha a sua primeira Champions League, campeonato mais importante do planeta. O clube catalão finalmente se abriu para o mundo.

Coincidência: justamente no início da década de 90, surgiram os primeiros browsers e a internet comercial, que tornaram a ferramenta acessível para todos. Foi quando a internet se abriu para o mundo.

Naquele time de 92, jogava um meio campo chamado Pep Guardiola. O idealizador desse superBarça. Futebol organizado, de muitos passes, de muitas trocas de posição, colaborativo como nenhum outro.

Seria coincidência aparecer um time assim justamente agora, quando todos falamos de Colaboratividade?

Me parece que esse é apenas mais um reflexo da evolução das redes. Uma delas é a internet. Uma delas é o futebol. Uma delas é o show do Black Eyed Peas. Uma delas é a indústria da música se reinventando. Uma delas é você falando por skype. Uma delas é a piada da Luisa, que está no Canadá.

Enquanto a gente vir tudo isso separado, talvez a gente não esteja pensando na rede entre que existem entre as rede. Que, se você preferir, pode chamar de inter-net.

E aí, você talvez concorde comigo. Essa rede entre redes, essa inter-net, não é uma tecnologia. É um comportamento.