*Por Marco Loco Bezerra.

Acho legal falar de assuntos um pouco delicados. Hoje vou ser ainda mais provocativo que em meu último texto. Perdão, faz parte da minha personalidade cutucar em feridas já cicatrizadas. Principalmente se eu acho que ainda tem uma infecção por baixo da pele.

Eu sou gaúcho e tenho orgulho disso. Mas junto a esse meu gauchismo vive, em mesma proporção, um espírito critico. Aprendi a amar muito mais o Rio Grande do Sul por viver longe dele. E isso não é de hoje. Culpa do meu pai militar que ensinou-me algo precioso. Para estar no Rio Grande não precisa cruzar o Rio Mampituba na direção Sul. Lição que aprendi cedo, logo aos seis anos, quando fui morar fora do estado pela primeira vez. Fugi do assunto um pouco, eu sei. Ser sucinto não é uma qualidade que compartilho com meus colegas redatores.

Voltando ao tema, como falava, sou crítico. Ainda mais com as pessoas e coisas que eu amo. Como meu Estado, por exemplo. Verdade seja dita, não encontro alento, no seio do Rio Grande, em alguns aspectos que considero protecionistas e exagerados. Então aqui vai a primeira verdade: nós gaúchos não somos os melhores em tudo. Acreditem nisso. Nem tudo que vem de fora é pior ou ruim. Sim, existem cervejas melhores que Polar.

Baseado nesse pensamento tenho uma sugestão. Para mim o Salão da Propaganda não deveria ser julgado apenas por profissionais gaúchos. Por que não convidar colegas de primeira linha de outros estados?

Parece um pouco pecaminoso levantar essa bola. Eu mesmo já defendi opinião contrária. Felizmente, não cristalizo meus pontos de vista. Como sei que esse assunto provoca discussão, vou justificar-me antes de começar a levar porrada.

Em 2003, se não me falha a memória, foi a última vez que o Salão da Propaganda foi julgado por profissionais de fora do estado. A experiência, para muitos, não foi proveitosa. As principais justificativas foram relativas a quantidade de prêmios. Os caras chegaram no Sul e levantaram tanto o sarrafo que poucas peças receberam boas pontuações. A média de medalhas foi uma das mais baixas dos últimos anos. A galera não gostou, em geral. Sendo bem egoísta, admito que eu também fiquei puto. Hoje, vendo a coisa por um outro ângulo, entendo que a experiência poderia ter sido melhor, mas longe de ser descartada.

Muitas vezes um critério muito alto prejudica a avaliação. Esse foi um dos motivos do nível das questões do ITA terem baixado nos últimos anos. Ficava mais complicado de avaliar os candidatos. Não acho que esse fora o caso do Salão daquele ano. Acho que os paulistas estavam tão desconectados do mercado que não sabiam avaliar um rodapé, por exemplo. Só tinham olhos para formatos maiores e melhor acabados. Ou então não entendiam mais algumas características do nosso mercado. Esse é o motivo de ter colocado o “apenas” na minha frase de avaliação. Retomando: —- Para mim o Salão da Propaganda não deveria ser julgado “apenas” por profissionais gaúchos.

Não tenho dúvidas que seria legal, para o prêmio, convidar um nego fudido de fora, para a cadeira de presidente do júri. Imaginem o Eugênio Mohallem julgando seus títulos? Tudo bem, fui longe mas por que não a Keka Morele? Ela é uma das melhores diretoras de arte do Brasil, está em grande fase e ficaria honrada. Garanto que não é só ela que aceitaria o convite. Abrindo ainda mais o leque, não acho que deveriam ser só gaúchos os convidados. O André Laurentino é um ótimo exemplo. Ele é um publicitário completo, muito inteligente e casado com uma gaúcha. Será que seria tão difícil traze-lo?

Sou partidário do mesmo critério para o Anuário do Clube de Criação. E não falo isso para conseguir uma passagem grátis. Não me incluo numa lista de possíveis candidatos. Seguindo a mesma linha de questionamento pergunto: —-Por que os caras de Sampa não convidam um nego fudido, de fora, para avaliar o maior prêmio brasileiro? Imaginem o Erik Vervroegen como presidente do júri de print do anuário. Eu acho que só valorizaria. Se não querem chamar um gringão convidem o Ícaro Dória ou Juan Cabral. Tudo bem, o argentino seria melhor para o Salão, ia sentir-se mais em casa em Porto Alegre.

Em fim, acho que um sopro de ar renovado é fundamental. E acho ainda mais importante, essa avaliação, no nosso mercado gaúcho. Muito mais do que em São Paulo, certamente. Afinal, criadores paulistas são jurados nos prêmios mais importantes do mundo. Fato que não ocorre com os profissionais da terrinha nos prêmios nacionais. Isso deve ser falado e levado em consideração.

Então aqui fica a sugestão. Não tenho nada contra os profissionais que julgam o prêmio, atualmente. O Régis, por exemplo, foi um cara que influenciou muito meu trabalho. Jamais falaria que algum gaúcho não é capaz. A avaliação da minha sugestão deve ser observada de outra forma. Colocaria em outra categoria. Como o terapeuta de casal que, por não estar tão envolvido, pode ajudar o par a solucionar diferenças.

***

Marco Loco Bezerra é diretor de arte da TBWA Berlim, um freqüente colaborador da Perestroika e, se tudo der certo, um futuro Czar na Europa.

Postado em 26 de agosto de 2008 às 11:19
Arquivado na categoria: Perestroika
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4 Comentários

Felipe

Pois é. Hoje mesmo, o Tiago e eu estávamos conversando com o Beto Baibich na Perestroika sobre isso. Pode fazer muito bem a gente mirar mais em cima, encarar um padrão mais complexo, um sarrafo mais alto. E acho que essa sugestão híbrida pode ser o denominador comum, nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Mirar no Bronze. Grande contribuição Marco.

E a Kika começou este sábado à Perestroika. É família Loco Bezerra em peso na Comunidade.

admin

Marco, eu concordo totalmente contigo. O foda é que um júri mais exigente premia pouco, e o Salão é uma festinha pra todo mundo sair feliz.

leo prestes

Também acho que júri misto é a melhor maneira de julgar.

Aliás, tem muita coisa para se discutir: ter uma agência do ano não distorce os critérios de avaliação? Não poderia ser como é o CCSP?

Buzz e internet não são propaganda e não deveriam entrar na competição também?

O mercado deveria ter um fórum para discutir isso todo dia. Espero que a nova ARP consiga se tornar esse fórum.

Carol d'Avila

Concordo totalmente. Mas acho que o mercado (gaúcho) gosta dessa putaria: todo mundo feliz!
E aí, surgem as novas gerações ESPM (como vcs chamam), se achando os FODA e prontos pq. ganharam um bronze no Salão da Propaganda.
Acho que por isso não tenho a menor paciência pra esses concursos de beleza!
Saudade de ti, guri.

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