*Por Desirée Marantes
Eu acredito ser impossível viver sem música. Algum espertinho certamente vai dizer “e os surdos, vivem como?” então já aproveito para enfatizar que música não se percebe apenas com os ouvidos, certamente todos já foram em algum show ou festa devem ter sentido aquele “baixo bombando”, o que nada mais é do que as freqüências de sub-grave atingindo o corpo humano. Então sim, música não é apenas apreciada pelos ouvidos, surdos também vivem em um universo musical e de acordo com uma das teorias mais modernas da física, a Teoria das Cordas, todos nós vivemos em um mundo regulado por freqüências.
Ok, isso foi apenas uma pequena digressão.
Ultimamente tenho reparado em uma espécie de renascimento de canções pop com arranjos mais complexos, onde o uso de harmonias complexas remete diretamente a vocais no estilo Beach Boys, bandas onde a presença de aparatos tecnológicos não é o mais importante, não sobrepujam a presença humana, ou seja, um retorno a fazer música com as mãos, e não apenas pressionando botões e samplers.
A utilização de instrumentos acústicos é bem marcante e isso faz muita diferença (ex: trompete, trombone, violino, violoncelo, gaita). Para se tocar bem (ou pelo menos de maneira que não agrida o ouvido alheio) é necessário ter certa prática e familiaridade com as ferramentas em mãos, ao contrário de recursos da música eletrônica, onde é possível ler um tutorial sobre midi e criar um disco. Dentro dessas novas bandas a mais conhecida delas chama-se Beirut, do jovem multi-instrumentista Zach Condon, e outras ainda estão engatinhando no mundo indie, mas são tão boas quanto, como Fleet Foxes, The Mumlers, Cloud Cult e Misophone.
O principal motivo de essas bandas terem me chamado atenção*, é que elas representam uma maneira de criar que privilegia a utilização da técnica sem o uso exagerado da mesma e que traz de volta a tona o elemento humano dentro da criação, o chamado “feeling”, ou seja, o poder das mãos.
Porém não basta apenas ter feeling e não dominar a técnica. E ambos dependem de inspiração para se desenvolverem. Aliás, já pararam pra pensar sobre essa palavra? Seria apenas coincidência que ela além de significar uma espécie de iluminação, também representa parte do ato de respirar?
Bom, voltando a música e as mãos. Me passa pela cabeça que talvez isso seja representativo de uma série de movimentos culturais e de consumo que buscam essa idéia do feito a mão, da exclusividade, de trabalhar com elementos diferenciados, de fazer algo que seja só seu e ao mesmo tempo universal.
Essa reflexão é uma tentativa de chamar a atenção para o quão legal e interessante (eu diria que é vital, mas tenho tentado ser uma pessoa menos radical em minhas afirmações) é reparar como influências que teoricamente não tem a ver com publicidade e nem com consumo, acabam se tornando fontes inusitadas de inspiração. Que observar o que acontece ao nosso redor, ajuda muito na hora de se dar conta de como fatores aparentemente irrelevantes fazem toda a diferença na detecção de movimentos que podem, ou não, se tornar mais fortes no futuro e influenciar o comportamento da sociedade.
E que é preciso exercer o poder de abstração em frente ao mundo das famosas referências, pois elas fazem parte de um passado que não deveria ser ruminado. Já se deram conta de que talvez não seja a toa que aquela revistinha famosa de publicitários se chame ARCHIVE? Sim, eu tento ser menos radical, mas nem sempre consigo.
Ah, segue link para se alguém quiser baixar algumas músicas das bandas que citei.
*As músicas são ótimas também.
***
Desirée Marantes trabalha na Box1824, empresa parceira da Perestroika no curso Consumer Beat. A idéia é que ela contribua regularmente com o blog da Perestroika.
19 Comentários
29 de agosto de 2008 às 14:14
muito legal mesmo, desirée. eu, que não sou muito ligado em música, achei do caralho. imagina quem curte.
tg
29 de agosto de 2008 às 15:16
Boa, desi. Eu não tinha me ligado desta onda do manual na música.
Eu gosto de CocoRosie.
Também entra nessa onda meio manual, nao? É o manual no tecladinho de animais comprado em Taiwan.
29 de agosto de 2008 às 16:24
Tenho mais projetos musicais do que bandas, atualmente.
http://www.myspace.com/zombieoper
http://www.myspace.com/cambojamotel
http://www.myspace.com/monodia
http://www.myspace.com/osmassa
29 de agosto de 2008 às 16:38
bom, discordo na parte sobre fazer musica com instrumentos “nao eletronicos” faz o som ter mais feeling, acho que isso esta totalmente ligado a percepcao musical de quem toca e de quem ouve. por exemplo, numa pista eh impossivel dizer que um live act vai ter mais pegada do que alguem tocando um set com musica de outros produtores. e pode ser preconceito, mas acho que o som pop sempre vai ter aquela melodia de facil digestao para agradar bastante gente, e nao algo mais serio e profundo. concordo que os intrumentos acusticos dao um “extra” em qualquer tipo de som, mas o computador está aí. cada vez mais projetos e bandas estao fundindo seu som organico com o eletronico, os estilos musicais ja muitas vezes nao podem serem definidos de tanta influencia de todos os lados. graças a deus. euheuehu =]
29 de agosto de 2008 às 20:19
[...] Aproveitando o clima Islândia (ie, frio assassino) que lamentavelmente me proporcionou uma bela gripe maconha (onde me sinto plenamente emaconhada fulltime), convido o benevolente leitor a se dirigir ao bueníssimo texto da amada Desi, Sobre Música e Mãos. [...]
30 de agosto de 2008 às 0:12
Bruno,
Veja bem, não critiquei bandas que utilizam de midi e samplers, só busquei chamar a atenção para esse contraponto de um retorno a instrumentos acústicos. Inclusive eu acho que quanto mais gente ler tutoriais sobre midi e fizer discos, melhor! Eu espero que aconteca com a música o que aconteceu com a fotografia com a popularizacao de cameras digitais, que todos tenham acesso a criar qualquer coisa musical. Obvio que vai ter muita musica ruim vindo disso, mas também vai dar chance para pessoas que acreditavam não possuir nenhum “dom” para a música trabalharem nisso. Enfim, ai entramos em um ponto que rende discussões para uma vida inteira. Mas que bom que o assunto está gerando idéias e opiniões!
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30 de agosto de 2008 às 9:46
Acho que esse texto tem muito a ver com a aula
Anal? Lógico! que eu dou para a turma de Criação 1, onde a gente vê como as coisas feitas de forma analógica acabam “soando”- mesmo que visualmente - mais interessantes. Porque agora, com efeitos especiais, possibilidades de geração de imagens 3D e todo o universo que as ferramentas digitais e tecnológicas oferecem, quando a gente percebe, vê o suor, o trabalho manual que tem por trás da obra produzida, acaba achando mais legal. Fica mais orgânico. Inclusive convido a Desirée para assistir essa aula.
1 de setembro de 2008 às 8:34
Caramba, que post ótimo!
E que venha logo a aula Anal?Lógico!
Parabéns, Desirée.
1 de setembro de 2008 às 9:49
Massa Desi, concordo muito.
Toda essa onda folk que atinge os moderninhos do mundo também é conectada com essa ‘volta das mãos para a música’.
Aproveito para destacar que na Argentina a cena indie folk é totalmente conectada com a volta do tango entre os jovens, mas de uma forma oposta ao tango eletrônico que se destacou a uns 4 ou 5 anos atrás.
Agora o legal são as bandas de tango de salão, uma volta ao tango mais rústico, manual e acústico (assim como no Brasil é moda entre os jovens as bandas de gafieira).
Bandas da cena indie folk argentina que destaco:
Pablo Dacal_http://www.myspace.com/salonerias
La Quimera del Tango_ http://www.myspace.com/laquimeradeltango
Me Darás Mil Hijos_ http://www.myspace.com/medarsmilhijos
1 de setembro de 2008 às 9:51
Galera, para quem tentou acessar o link do post para baixar as músicas e não conseguiu segue ele novamente, agora correto.
http://www.mediafire.com/?tutp44uxymm
Beijos e abraços.
1 de setembro de 2008 às 10:20
Ah, e eu adoro quando as pessoas concordam comigo.
http://tecnologia.terra.com.br/interna/0,,OI3145432-EI4801,00-Criadores+digitais+redescobrem+o+uso+das+maos.html

29 de agosto de 2008 às 13:34
sempre que eu falava pros meus amigos que não gostam de carnaval, que estar ao lado de uma bateria de escola de samba, converte qualquer um, eles riam da minha cara… mas talvez seja pq eles não conhecem o sub-grave, hehehehe…
e eu acredito na teoria das cordas! e muito!
adorei o post, espero pelos próximos!