Todo mundo já ouviu lendas urbanas.
“Não aceite bebida de estranhos, ou você pode acordar numa banheira cheia de gelo e sem os seus rins.”
“Não vá no cinema do Iguatemi, porque os caras colocam agulhas infectadas com HIV.”
“Não coma no McDonald’s: os hambúrgueres são feitos com carne de minhoca.”
É ou não é? Ainda mais, depois que inventaram o e-mail. Lenda urbana é o que não falta.
Pois bem: dentro da propaganda gaúcha, existe uma lenda que me incomoda bastante. A de que “o mercado está saturado”.
Eu já troquei de emprego quatorze vezes. Já fui peão de gráfica e host de restaurante metido. Já fui assistente de arte, arquivador de fitas e jornalista de um veículo totalmente picareta. Já distribuí flyer na praia. Já fui o último estagiário na hierarquia de uma grande produtora (aquele que vem depois do cu do cachorro). Hoje, sou Diretor da minha própria empresa. Mas sabe-se lá o que vai vir amanhã.
E por todos esses lugares, eu sempre acompanhei o desespero dos meus chefes quando alguém pedia demissão. Guardadas algumas exceções, era sempre um parto achar um substituto. Fosse quem fosse. Do novato ao presidente.
Isso indica que, diferente do que se diz nos corredores, o mercado gaúcho não está saturado. Quer dizer: o mercado está saturado, sim. Mas saturado de profissionais que estão abaixo da expectativa de quem contrata.
Quando se precisa de alguém bom, realmente bom, que entregue coisas acima da média, que tenha o respaldo de um bom portfólio, com maturidade e postura, que seja do bem e não tenha medo de trabalho, é foda de achar.
Vi isso se repetir por todas as agências que passei. Mas também no restaurante, na gráfica e até no jornal picareta.
Esse cara valioso, quase insubstituível, que é uma mistura de Romário (pelo talento) e Dunga (pela postura), é dificílimo de achar. E se você abrir mão dos nomes de maior visibilidade (que normalmente já recebem um bom salário, ou já atendem boas contas, ou já estão felizes na empresas em que trabalham), fica mais difícil ainda.
Lembro bem quando o Perottoni foi para Londres e a DCS ficou meses e meses até achar a pessoa certa. O João Pedro Vargas, que é um puta diretor de arte. Um cara gente finíssima, super low-profile, e que justamente por isso foi um pouco mais difícil de encontrar.
Não sei como é em São Paulo, nos EUA ou na Europa. Mas aqui, eu garanto. Se você for bom, mas bom mesmo, você vai ser valorizado pela sua agência e respeitado pelos colegas. E vocês viverão felizes para sempre.
THE END.
11 Comentários
9 de setembro de 2008 às 19:32
Certamente serão bem valorizados, mesmo pq normalmente esses profissionais ganham em média 2,3 milreais e fazem trabalhos que rendem milhões pra agência. Quem não quer profissional assim?
A propaganda no RS é foda sim, principalmente pra quem começa. É exploração. O auxílio não chega nem para pagar o almoço.
O negócio é sumir daqui assim que der.
9 de setembro de 2008 às 20:12
Concordo.Para os bons sempre tem espaço.
Mesmo assim existem momentos em que a lei do mercado desmorona ou fica demasiadamente cruel.
Quando fui para São Paulo com o Emiliano, foi um ano horroroso. Nunca o mercado de propaganda esteve tão quebrado nos últimos anos. O Rafa deve lembrar pois fui mostrar a pasta para ele na Capsula/TBWA.
Uma semana antes a DM9 havia demitido meia criação, assim como muitas outras agências. Nego com Leão de ouro ficou desempregada por 6 meses. Foi um terror.
O grande lance é que nós viamos aquilo como uma oportunidade. A demanda por trabalho continuava, o que falatava era grana. Foi exatamente ai que eu entrei.
Onde eu quero chegar? Porra, lugar nenhum. Como sempre dei uma bela viajada. Também não quero assustar ninguém. Aqui na agência mesmo ficaram 8 meses para contratar uma dupla junior.
O grande lance é saber que o mercado não é saturado. Ele pode estar saturado. Talvez a grande verdade é sua volatilidade. Quando a economia cai o primeiro corte é em propaganda.
Coisa que também acho uma bobagem.
Grande abraço
PS: Eu achava que esse lance de mercado saturado era desculpa da minha mãe para eu fazer medicina e não estudar com esse bando de maconheiro na FAMECOS.
10 de setembro de 2008 às 10:45
Desde que me conheço por publicitário, existe essa lenda. Foram anos de sofrimento, aprendizado, e acima de tudo, aula de como é a vida.
Agora que estou do outro lado (empregador) vejo o martírio que é conseguir reunir uma equipe boa.
Acho que tudo começa na postura das pessoas que querem trabalho. E no que as instituições de ensino tem a transmitir pra elas.
Muito tchá-tchá-tchá para todos.
10 de setembro de 2008 às 15:28
Mas e pra ter esse perfil que tanto faz falta no mercado, o que precisa além da vontade?
10 de setembro de 2008 às 16:19
Olha, tô querendo acreditar que o mercado aqui não tá saturado, até pq acreditar que existem chances melhores nos leva adiante. Sou veterano e bem maduro.. em todas as empresas (aqui e no Rio)que trabalhei (não foram muitas) saí com excelentes cartas de recomendação. Sou novato apenas aqui em Poa, onde estou há pouco mais de 3 anos, enquanto isso o tempo vai passando, eu ficando mais velho. Estou na agência em que estou por indicação. Nas outras que trabalhei, ídem. Fico pensando (às vezes meio desiludido, confesso), quando será que irá pintar outra oportunidade para mim. Ah, tenho tentado: calos nos dedos de mandar msgs com links virtuais via ‘adonline’. Sou do time daqueles que vestem a camisa, seja ela de que tamanho for. Estou entusiasmado com o curso que estou fazendo na Perestroika (Design) e que novos ventos soprem a favor…
10 de setembro de 2008 às 19:53
Concordo em gênero, número e grau. Até pra contratar estagiário é uma dificuldade. Na verdade, a gente é que deve estar sempre alerta para ser o profissional desejado pelo mercado, isto é, a gente é que tem que se adaptar ao mercado e não esperar que o mercado esteja nos aguardando de portas abertas. Por exemplo: ganhar menos, às vezes, pode ser vantajoso. Mudar de cidade, mudar até de função. Ou ficar desempregado por uns tempos para fazer um bom curso fora.
11 de setembro de 2008 às 12:25
Muito bom pra quem tá começando, para quem já começou e, pq não, para quem está pensando em parar.. vamo se puxar gurizada, olhem para os lados e comecem a fazer o que nínguem faz, “olhar para onde ninguem olha” já dizia o Rafa e o Felipe..bora trabalhar, bora se especializar, não esquecendo que saber de tudo um poco é importante. Abraço!
13 de setembro de 2008 às 9:45
Ok. Mas vcs falam apenas na área de criação…e as demais áreas?? E os administrativos/financeiros/arte finalistas que nem aparecem, como se fossem fantasmas nas agências?? Isso parece a história aquela de quem é mais importante: o cérebro ou o cu?? Quero ver o dia que não tiver as tiazinhas para fazer e servir o café nas agências…Como em qualquer setor existem as dificuldades, o certo é parar de ficar falando e agir em prol( de si mesmo ou da empresa onde tu trabalha). Será que a gente não tá se superestimando?? vamos à luta…olha o exemplo da Perestroika aí….
15 de setembro de 2008 às 11:26
Muito bom o texto. Pessoal, vocês são realmente demais. A Perestroika é o lugar certo pra aprender a vencer nesse mercado que só premia os bons. Com esforço, talento e orientacão de mestres como vocês o pessoal que é bom vai se destacar e vai conseguir ganhar um pouquinho mais do que a empregada doméstica e vai achar ótimo.

9 de setembro de 2008 às 16:28
“Eu já troquei de emprego quatorze vezes. Já fui peão de gráfica … Hoje, sou Diretor da minha própria empresa”. A la Ford Fusion esse, fez por merecer.