*Por Eduardo Petersen.
Antes de mudar para os Estados Unidos, meu último emprego em Porto Alegre foi como assistente de arte na Escala, onde trabalhei por quase 2 anos. Isso já faz um tempo, mas acredito que as reponsabilidades não tenham mudado muito. Na época, todos assistentes estavam na mesma situação que eu. A gente passava o dia procurando imagens, adaptava layout vertical para formato horizontal, cortava os dedos montando material para apresentação de campanha, se intoxicava com cola spray e de noite ia para a faculdade. Eventualmente se perdia uma aula ou outra, mas sabendo administrar o tempo dava pra sobreviver.
Não sei do resto da galera, mas eu curtia muito meu trabalho. Achava a agência do caralho e tive muita sorte de trabalhar com um diretor de arte afú. Ele tinha paciência pra me ensinar as barbadas dos softwares, me motivava o tempo inteiro pra fazer propostas e sempre que eu tava liberado me chamava pra fazer brain junto com a dupla. Claro que nem tudo era uma maravilha. Sempre vai ter aquele sábado que tu planeja ir para um bar com os amigos e tomar cerveja até o sol nascer, mas que vai ser adiado porque o cliente não aprovou a campanha apresentada sexta-feira às 4 da tarde. Levando tudo isso em consideração acho que foi um período super produtivo pra mim pois aprendi muita coisa.
O interessante é que foi só a pouco tempo que me dei conta que não pensava assim na época. Na verdade, eu achava uma merda perder fim de semana, ficar até tarde na agência ou olhar sites de banco de imagem até sair sangue dos olhos. Como que a minha opinião mudou?
Bom, mudou quando comecei a trabalhar aqui. Logo nas primeiras semanas fiquei impressionado como a qualidade dos anúncios apresentados para o cliente é inferior a do Brasil. Aquela coisa de layout caprichado com referências legais não existe aqui. Nego pega imagem do Getty Images e toca um título em cima, sem muita frescura, com marca d’água e tudo. Ficava me perguntando: será que o diretor de arte não tem acesso a imagens em alta resolução? A dupla virou noite e não teve tempo pra caprichar mais? Talvez seja a 5ª apresentação e eles já estejam de saco cheio? Ao contrário, eles tem acesso à várias ferramentas e os prazos são bem maiores que aí. Com o passar do tempo me dei conta que falta técnica mesmo e tentei entender o porquê.
A formação da maioria dos diretores de arte americanos é bem diferente. A faculdade daqui não prepara para o mercado, ela dá uma idéia geral do que é propaganda. Quando o cara sai do colégio aqui ele pode entrar na faculdade sem ter a mínima noção do que quer fazer da vida. Funciona assim: tu faz as matérias básicas para todos cursos e depois tu vai escolhendo as cadeiras que mais te interessam. Na teoria é muito bonito, mas o resultado nem tanto. Nego sai da faculdade perdido e sem saber exatamente o que fazer. É nesse ponto que surge uma luz no fim do túnel e entram em cena as Portfolio Schools (Miami Ad School, VCU Brandcenter, etc.). Lá tu pode realmente te especializar na profissão que escolher dentro do mercado publicitário. Os cursos são muito legais e eu realmente acho que preparam melhores profissionais. O grande problema é que na maioria das agências não existe a etapa do assistente, e aí mais uma vez o coitado cai de pára-quedas e tem que sair fazendo campanha sem supervisão de ninguém.
Ser assistente é cansativo, mas realmente penso que apesar de ser tortura para muitos, essa etapa do aprendizado é extremamente necessária. Acredito que independente de onde o cara for trabalhar, vai chegar uma hora que ele vai mudar de opinião. Assim como eu mudei.
***
*Eduardo Petersen, o Dado, é Diretor de Arte na DDB New York.
11 Comentários
30 de outubro de 2008 às 10:14
Acredito que como assistente o cara adquire uma bagagem animal.
Aqui no trampo eu sinto muita falta de pitacos profissionais de quem manja.. geralmente eu e a gurizada daqui fazemos tudo no amor, sem embasamento técnico, e é fogo, pq as vezes a gente se sente meio perdido, não tem alguem pra dar uma guiada.
30 de outubro de 2008 às 11:08
Aqui também! Nenhuma faculdade te prepara para o mercado. Isso é vendido para os futuros alunos, mas chega na hora isso não acontece. Faço Publicidade na Unisinos, acho um curso mediano para bom, mas conheço muita gente que está mais perdida que outra coisa. Uma galera sai de lá e não tem a mínima idéia do que seguir. Apesar de ainda estar cursando, eu passei por um período que a maneira como me era passado o “ideal de mercado” tanto quanto a “teoria” era completamente desmotivante. A única coisa que eu pensava era: “que droga eu tô fazendo aqui”. Hoje mudei um pouco de opinião, pois estou conseguindo me achar dentro do mercado, mas para quem ainda está perdido é terrível.
30 de outubro de 2008 às 12:25
Achei muito legal o post. Eh exatamente o que estou vivendo hoje. A diferença, eu acho, é que tem uma galera aqui que já tá muito ligada no valor que tem essa ralação toda. Neguinho se fode, mas pensa: “não dá nada, daqui a um tempo vou rir disso”. Enfim, acho um puta investimento na carreira.
Segue abaixo o link prum post que eu escrevi no Blog da turma 3 a respeito do assunto:
http://dedonocuegritaria.blogspot.com/2008/07/estagirio-profissional.html
Vieira.
30 de outubro de 2008 às 14:25
Gostei muito das tuas colocações e observações.
Isto mostra a importância das vivências em várias culturas. Resultando no amadurecimento tanto profissional como pessoal.
Abração!!!
30 de outubro de 2008 às 15:24
E aí Tiago, tudo beleza cara?
Acredito que algumas faculdades brasileiras tentam, dentro do possível, aproximar os alunos do mercado. Eu por exemplo, tive diversos professores que estavam no mercado publicitário, que trabalhavam comigo durante o dia. Também fiz cadeiras que me ensinaram bastante sobre a nossa profissão e me deram uma visão, mesmo que limitada, de como seria o mundo real (redação, direção de arte, rádio, TV, design, web design, etc.). Não sei se o modelo engessado das faculdades brasileiras ainda é a melhor opção para aqueles que pretendem ser publicitários. Provavelmente não, mas em comparação com os Estados Unidos ele ainda forma melhores profissionais.
Abraços, Dado
30 de outubro de 2008 às 16:39
Acho que entendi o que o Dado quis dizer. Não acho que as faculdades daqui preparem pro mercado e lógico que a realidade é bem diferente (tem a pressão, tem o cliente que não entende nada, tem o prazo apertado), mas imagina um cara que entra pra faculdade e faz SÓ as cadeiras de DA sem ter noção de REDAÇÃO ou vice-versa, porque não gosta de uma ou de outra.
Fazer as cadeiras que só convém não preparam pra nada. Lógico que é um porre fazer cadeiras de pesquisa e religião, por exemplo, mas é fazendo tudo que a gente sai da faculdade com uma noção de como a coisa funciona e não sai tão perdido na hora de fazer do aprendizado uma profissão.
31 de outubro de 2008 às 17:31
Pode até ser que neguinho olhe pra trás e veja que passar noites em claro e trampar no findi foi um investimento pra carreira e coizetal.
Mas nada me tira da cabeça que essa lógica é completamente torta, e muito responsável por fazer com que criativos desistam da profissão aos 40 anos porque começam a achar que toda a correria simplesmente não vale a pena.
É uma situação que não é exclusiva do assistente, mas que se agrava pelo simples fato de que o cara ganha mal pra caralho.
Ser assistente é necessário sim. Mas não quer dizer que seja saudável.

30 de outubro de 2008 às 9:32
Muito bacana o post, cara. Eu só não entendi muito a comparação que fez das universidades daí com as daqui.
“A formação da maioria dos diretores de arte americanos é bem diferente. A faculdade daqui não prepara para o mercado, ela dá uma idéia geral do que é propaganda.”
No RS (imagino que no Brasil inteiro), as universidades também têm essa postura, e tentam dar uma formação mais generalista. Até acho que algumas se esforçam e têm boa intenção. Mas o fato é que nenhuma prepara para o mercado. Pelo menos, não para a realidade do mercado.
Uma delas (e uma das mais lúcidas, diga-se de passagem) tem cadeira de Direção de Criação. Consegue imaginar isso? É mais ou menos como um curso de kart ter um módulo “Dirigindo um carro de Fórmula 1″.
Abraço.
tg