Cada vez mais eu acredito numa coisa. E cada vez mais, eu acredito que é essa coisa que diferencia os bons criadores.
É a disciplina. Por mais contraditório que isso possa parecer.
Eu sinceramente acho que, se nós pegássemos qualquer departamento de uma agência de propaganda (atendimento, produção, mídia, etc.) e colocássemos na criação, e treinássemos durante alguns meses essas pessoas, o resultado seria surpreendente.
Chegar em boas ideias não é difícil. Pensar em porra-louquices não é difícil. Estou convencido disso. Quanto mais estudo o processo do brainstorm, e como as ideias surgem, mais eu me impressiono. O brain é só um processo. Que qualquer um pode seguir.
O que talvez facilita a nossa vida (nossa = criadores do departamento de criação) é a personalidade das pessoas que vão para a Criação. Porque, em geral, nós temos traços que FACILITAM o processo de brainstorm. Como (só para citar dois exemplos) a desinibição e a sensibilidade.
Mas se uma pessoa qualquer decidir treinar essas características, e investir tempo e energia exercitando (de novo, só para citar dois exemplos) a desinibição e a sensibilidade, eu acredito, sinceramente, que o resutado não será muito diferente do que temos hoje no dia-a-dia de uma agência.
Parece loucura. Mas eu juro que acredito nisso.
Daí, você pode dizer. “Tiago, você realmente acha que um atendimento criaria um bom título? Que uma mídia pensaria numa ideia visual bacana?”.
Sim, acredito. Com alguns meses de treino e muito disciplina por parte do cara, acredito pra caralho.
Daí, você pode insistir: “Mas Tiago, você acha que eles vão conseguir criar aquelas ideias inusitadas, que a gente fica morrendo de inveja?”.
Aí eu não sei.
Ao mesmo tempo, eu não sei quantas ideias realmente inovadoras e inustitadas um departamento de criação produz por ano. Aquelas ideias que a gente diz: QUE COISA NOVA!
Porque se formos realmente críticos com os nossos próprios portfólios, vamos ver que a maioria absoluta do que fazemos são fórmulas. São padrões. Até as peças que criamos exclusivamente para para festivais.
Eu olho para os anúncios (estou falando só dos anúncios!) que criei e nada do que eu fiz fugiu de quatro padrões:
- Ideia visual
- Anúncio de título
- Anúncio de texto
- Anúncio interativo
Será que isso é ser INOVADOR? Na época em que eu fiz, achava que sim. Hoje, com um distanciamento (de tempo, e até do ambiente de agência), estou bem mais inclinado a achar que que não.
Claro, eram boas peças. Boas soluções para os problemas do cliente. Mas não dá para dizer que eram coisas novas, inovadoras, revolucionárias. É muita pretensão achar isso.
***
Vocês já ouviram falar do Faking It? É um reality show antigo, que passava na TV inglesa e era reproduzido por alguma canal a cabo aqui do Brasil (acho que era o Multishow).
A moral era a seguinte: eles pegavam um profissional X e o treinavam durante um mês para executar uma atividade diferente da que ele fazia anteriormente (ex: um tosador de ovelhas viraria cabeleireiro).
No final, outros três profissionais (no caso, outros três cabeleireiros) passavam pelo crivo de um júri, que avaliava o desempenho dos quatro. Então, o júri era comunicado que havia um impostor infiltrado. Na maioria dos casos, o júri não acertava quem era o picareta.
Tipo, um vigário virava vendedor de carros usados. Um bailarino virava lutador de luta-livre.
Um fritador de hambúrgueres virava chef. Um pintor de casas virava pintor de quadros (e hoje ganha uma puta grana como artista plástico).
Você acha que o programa encontrou talentos em meio à multidão? Que foi sorte? Que foi uma chance em um milhão? Eu prefiro acreditar que foi só disciplina, foco, treino.
Veja esse trecho de um cantor punk que se tornou maestro.
Tudo bem, tudo bem. O cara não virou um maestro. Ele regeu apenas uma música, uma única vez, OK.
Mas é suficiente para comprovar a teoria. Ou, no mínimo, para nos deixar uma pulga atrás da orelha.
***
Toda essa longa introdução é para dizer o seguinte: a gente, na Criação, tem uma tendência a achar que somos insubstituíveis. Quando chegamos num determinado patamar, simplesmente relaxamos. Achamos que o nosso talento, que o nosso histórico, é suficiente para nos garantir uma cadeira e um computador.
Não, não é.
Qualquer um pode nos substitutir. A dupla mais jovem. O estagiário que recém entrou. Ou o estudante, que ainda nem foi contratado pela agência.
É só um processo. É só treino. É só foco.
E essa é, na minha opinião, a principal razão pela qual os profissionais de mais de 30 anos no RS somem, desaparecem. Depois de um certo tempo, falta aquele tesão. E aí, vem o fritador de hambúrgueres e rouba a vaga do chef.
Certa vez, criei com o Rafa uma campanha para o Salão da Propaganda que dizia: Você é tão bom quanto o seu último trabalho. Nem achava a ideia tão legal, mas o conceito eu realmente curtia.
Se nos dermos conta que um fritador de hambúrgueres pode virar chef, em apenas um mês, nós vamos nos dar conta que somos extremamente vulneráveis.
A não ser, é claro, que a gente continue fazendo coisa boa. Todos os dias.
Esse foi um dos principais motivos para eu vir para a Perestroika. Recomeçar do zero, numa função onde você não sabe nada (no caso, eu não sabia nada sobre “administrar uma escola”), é a melhor forma de não deixar a vaidade nos detonar.
9 Comentários
7 de abril de 2009 às 13:50
Ótimo texto.
Tenho dúvidas se uma pessoa que tenha cabeça totalmente “administradora” (aquelas pessoas que têm talento para gerenciar as coisas, como os Atendimentos) conseguiriam criar algo realmente bom por longo tempo. Assim como penso que pessoas com cabeças totalmente criativas se embananariam na hora de organizar algo. Claro que todas podem aprender o básico, mas não sei se conseguiriam ir muito longe.
Começar do zero em algo novo é maravilhoso. Fazia tempo que eu não me sentia tão feliz quanto nos últimos trinta e poucos dias. O problema pra levantar da cama, hoje, é só o sono. =)
7 de abril de 2009 às 21:25
Amei o post.(parece que conta um pouco de minha história) E concordo que: com disciplina, foco e muito treino tudo pode acontecer na sua vida, basta você ACREDITAR e fazer sua parte.
No meu caso, lembro disso toda semana, quando pego o bus de Floripa pra Porto “pensar” PERESTROIKA. Com muita disciplina e não desviando do meu foco: Tesão de vida
É isso que treino toda semana.
Valeu Galera do bem!
8 de abril de 2009 às 14:11
Que texto legal e verdadeiro, Tiago.
Também acredito que é bem por aí.
Propaganda é como qualquer profissão:
a valorização é resultado de um empenho constante.
Valeu.
Bração.
8 de abril de 2009 às 14:46
Muito pertinente o assunto! Inclusive se considerarmos que, segundo especialistas em pesquisa e saúde, a depressão é a doença do século. Na minha opinião , muito do estimulo à esse mal, é a própria aceitação da não realização do ser humano por ele mesmo. Seja com o que faz, com que estuda, com quem vive. Muitas vezes a “vergonha” de se expor a sociedade com suas novas tentativas, anula a essência do cara.
Sair do seu quadrado, para aprender e buscar aprimoramento no do outro (sem invadir e pisar em ninguém, é claro), é quase fundamental. E concordo , é possível sim a pessoa se condicionar a uma atividade , até então, inusitada na sua lista de habilidades. Talento e habilidade de desenvolvem. Mas aí, quanto a questão colocada acima, pelo Gabe Brito, é preciso que o cara compre a briga com suas devidas consequências; seguindo seu desejo de inovar com outras experiencias, ele deve ter bem clara a noção, que, ao longo do tempo, ele vai ter que colocar tudo no seu devido lugar dentro da sua vida. Ou seguir as novas opções com afinco ou, como já disse, levar como aprimoramento os novos ares!
10 de abril de 2009 às 19:26
Perfeito Tiago, tua teoria está certa, e Aristóteles já dizia: “Somos o que repetidamente fazemos. A excelência, portanto, não é um feito, é um hábito.” (eu adorava o Faking It, pena q não passa mais..)
14 de abril de 2009 às 15:01
Gostei, Tiago.
As pessoas, em algum momento, param de pensar e ligam o automático, por isso se jogam na mesmice e perdem o tesão pelo trabalho. Alguns perdem pela vida. Sabe aquela capacidade de apreciar tudo como se fosse a primeira vez? Isso se chama sensibilidade. E falta.
Beijos
23 de abril de 2009 às 17:08
Eu lembro deste reality show. E concordo contigo: você é tão bom quanto o seu último trabalho. Ótimo post. Abs

7 de abril de 2009 às 13:47
Era legal programar este seu post para aparecer no meu email todos os dias, pela manhã.
Ou então, toda vez que uma criação começasse a ficar lenta e preguiçosa, o chefe mandasse um delivery de hambúrguer para a sala.