Mesmo que não diga em nenhum lugar que “Tomás Lorente teve um ataque do coração por causa do stress”, o evento em si é chocante. E, naturalmente, desencadea uma velha e inevitável discussão*.
Tenho certeza que essa morte fulminante vai repercutir por todas as empresas do mercado publicitário. E vai servir para defender aquela tese de que “temos que trabalhar menos e não se estressar por qualquer coisinha”.
Pode apostar: vai ter agência por aí dando discurso, dizendo que “a partir de agora, a nossa política é outra, queremos que os funcionários tenham mais qualidade de vida”.
Aí passa um, dois, três meses. Entra uma campanhona. Entra uma concorrência. Entra uma prospecção. E, quando o pessoal se dá conta, está tudo igual de novo.
E é natural que isso aconteça. O ritmo do mercado publicitário é um, e ele não vai mudar. Nem com a morte do Tomás Lorente, nem com a morte de ninguém. Eu já vi muitos movimentos (todos eles louváveis, diga-se de passagem) para organizar o mundo da propaganda. Mas todos deram na trave. Já perdi as esperanças.
***
Vou repetir uma coisa que defendo insistentemente:
Vejo muita gente reclamando que “trabalha demais, esse nosso mercado é insano”. E, pensando racionamente, até é.
Mas é uma escolha sua fazer parte desse jogo.
Não conheço ninguém que foi contratado com uma arma na cabeça. Já pensou, o cara do RH apontando um treis-oitão para você? Trabalhe aqui ou eu te mato!
Se você quer fazer parte de uma empresa X, e essa empresa X exige que você trabalhe que nem um cavalo: pense com carinho antes de dizer sim. Ou peça demissão quando encher o saco. Não faça parte do jogo se você não concorda com as regras.
Por outro lado, se você não vê problema nenhum em trabalhar para caralho, e fuder com a sua saúde, ótimo. Se você se realiza morrendo aos 47 anos de ataque do coração, mas com 15 Leões no portfólio: seja feliz, negão.
Eu acho autoritário quem defende que abrir mão do sucesso profissional para ter mais qualidade de vida é a única solução correta. Para uns, é. Para outros, não é. E quem acha que não é, não deve ter vergonha de dizer: “Eu quero morrer com 47 e foda-se o que vão pensar”.
Moral da história: você manda na sua vida. Você é quem decide se vai trabalhar num lugar onde tratam você como escravo ou não. Você é quem decide se vai chegar cedo em casa ou não. Ninguém é obrigado a trabalhar no lugar da modinha, na agência que todo mundo considera legal.
Se você quer qualidade de vida, é só ir para uma agência pequena, onde o ritmo é mais tranquilo. Só não fique lamuriando que “eu não faço nada legal e meus clientes são uns idiotas”.
Se você prefere ter mais visilidade do que saúde, não tenha vergonha de assumir isso. Só não fique reclamando que “esse lugar é foda, fim de semana é dia de semana”.
Você é o seu patrão.
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Eu, quando assumi a Perestroika ao lado do Felipe, tinha em mente uma empresa que contemplasse o melhor desses dos dois mundos. A gente quer ter alto desempenho, mas quer viver bem. Talvez seja uma filosofia meio utópica. Talvez não dê certo e a gente tenha que optar. Até agora, as coisas estão equilibradas e indo bem.
Agora, não foi fácil. Tive que abrir mão de muita coisa e correr muitos riscos para conseguir jogar o jogo com as regras que eu acreditava.
***
Só pra fechar: vale lembrar que Tomás Lorente era um cara muito, mas muito foda. Como Diretor de Arte, como criador, como Diretor de Criação e como empresário. É uma puta perda para o nosso mercado. Se vocês procurarem na internet, tenho certeza que vão encontrar muitos trabalhos memoráveis do cara.
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Mas para o post não terminar baixo astral, e já que estamos falando em qualidade de vida, aí vai um vídeo que vai, pelo menos, divertir um pouquinho do seu dia.
*P.S.: Valeu pelo comment, Rech.
16 Comentários
2 de julho de 2009 às 12:29
É, na real não dá pra ter essa certeza. Mas dizem que ele era um cara bem estressado (e ele tinha muitos motivos pra ser). Ao que tudo indica, esse foi o grande vilão.
Mas se não foi, o resto do post continua fazendo sentido.
Abs
tg
2 de julho de 2009 às 13:43
O problema é que muitas vezes é difícil o cara se dar conta de que vive uma vida insana. A gente entra numa espiral de pressão que é difícil de sair e acaba achando que a vida é assim mesmo. Só quando vai para um lugar mais calmo (ou que traga mais prazer) é que o pobre assalariado se dá conta do horror que era a sua rotina. Por isso eu sempre recomendo: terapia é fundamental.
Sobre a repercussão que essa morte deve ter no mercado publicitário, sorry, mas ela não vai durar um dia. Afinal, “aquela campanha pro cliente X tem que sair amanhã e, putz, eu perdi a manhã toda no velório do Tomás e agora tenho que correr atrás”.
É foda.
2 de julho de 2009 às 15:12
Bah… digamos que eu estou passando por um momento “auspicioso” na minha vida profissional, e este texto caiu como uma luva…
O texto está perfeito.
E acho, talvez esteja errado, mas às vezes me parece que o mercado sofre de um temor, uma insegurança terrível, o que causa um pouco deste stress todo…
Mas enfim, é isso mesmo.
Abs, Marcelo.
2 de julho de 2009 às 16:14
Se tu perguntar pra alguém que trabalha demais o motivo de ele estar fazendo isso, a resposta em 98% dos casos será: “pois preciso de dinheiro, ora!”
Aí tu pergunta por que ele precisa de dinheiro. E a resposta será: “pra ter comida, morar num lugar legal, ter um bom carro, viajar, etc”
Aí tu pergunta: “tá, e por que comer bem, morar num lugar legal, ter um bom carro, viajar, etc?”
E ele dirá: “pra ser feliz”.
E tu estás feliz trabalhando desse jeito feito um louco?
Silêncio. Barulho do vento. Bolas de feno voando.
2 de julho de 2009 às 20:17
Cara, tô chocada até agora… era um dos poucos caras com quem adoraria trabalhar! ![]()
3 de julho de 2009 às 9:11
Bom, posso falar de mim, por exemplo.
Trabalhei 6 anos em são paulo. Nos últimos dois anos a agência estava em um ritmo insano. Minha carga horária beirava as 12h diárias. Isso sem contar que incluia TODOS os finais de semana, pelo menos algumas horas. No ponto máximo cheguei a trabalhar 48h seguidas. Apenas com um breve repouso no sofá da agência de 1h.
Nesse dia acordei da soneca, fui no banheiro lavar o rosto e me enxerguei. Era uma caricatura de mim mesmo. Cheguei a conclusão que eu tinha que mudar. Arrumei a pasta e vim para a Alemanha.
Minha mudança começou com um check up no médico. Antes do plano de saúde não ser mais pago pela Lew,Lara. Os resultados foram um horror. Além de minha taxa de qualidade do esperma estar muito baixa. Motivo pelo qual não conseguia ter um filho, outro sonho meu. Parecia que minha escolha era acertada em abandonar aquela vida.
Hoje trabalho muito menos. Coloco muito menos trabalho na rua e ganho a metade da grana que rolava em São Paulo.
Por outro lado, nunca ganhei tantos prêmios na minha vida. Não preciso listar eles pois seria ridículo, só posso garantir que a compração é ridícula.
Por fim, minha esposa está grávida do pequeno Alexandre, que chega em outubro.
Me lembrei da frase de um Grande amigo e publicitário, Manir Fadel, que um dia me disse:
“Marco, para voar, tem que estar leve”
Abraço para todos e bom trabalho.
3 de julho de 2009 às 11:13
Vale aquela frasezinha batida: “Os homens gastam sua saúde para conseguir dinheiro e depois gastam seu dinheiro para recuperar sua saúde”. Troque a palavra “saúde” por “Qualidade de vida” e fará ainda mais sentido.
Seja presidente da sua vida (ns):
http://www.youtube.com/watch?v=25FjY-Tx_dU
6 de julho de 2009 às 9:28
O Marco Loco acabou de ganhar um fã aqui. Espero que sirva de inspiração pra essa gurizada nova que passa pela Perestroika.
8 de julho de 2009 às 11:25
Bah, um dos comentários mais lúcidos q vi sobre o tema nos últimos tempos. Bem ou mal-sucedidos como profissionais da área, seguido nos esquecemos q cada escolha tem um custo, pessoal e intransferível.
9 de julho de 2009 às 18:31
Entendo teu ponto, Tiago. Mas não acho que seja tão simples. Tu, o Felipe e o Marco puderam optar por levar uma vida mais tranquila, mas depois de se fuderem muito, trabalharem muito até tarde, virarem muita noite e construírem um nome. Não acho que seja assim pra quem tá começando e pra quem já é difícil conseguir um vaga. Qualquer vaga.
Também não acho que o mercado publicitário não possa mudar. Acho que ele não quer. É muito cômodo continuar explorando uma gurizada que dá o sangue por pouca grana sem ter que se coçar pra dar algo em troca. Já ouvi muito em agência o “não quer, tem duzentos aí fora que querem”.
Falta é mobilização dos trabalhadores (papinho meio CUT, eu sei), que não se vêem como categoria e não se fazem respeitar. E vergonha na cara dos donos de agência.
Organização não é sinônimo de falta de criatividade e de lucro baixo. Bem pelo contrário.
9 de julho de 2009 às 18:32
Ah, e o Tomás Lorente fumava 3 maços de cigarro por dia e, dizem as más línguas, cheirava bastante também. Além de ser sedentário.
20 de julho de 2009 às 11:59
Caro Malinoski (se é que este é realmente teu nome).
Tu tá completamente errado (tu e as más línguas). Absolutamente desprezível alguém fazer esse tipo de insinuação sobre outra pessoa que, pelo jeito, nunca conheceu pessoalmente.


2 de julho de 2009 às 12:00
Tiago, talvez eu esteja sendo muito ingênuo, mas não achei onde fala que a causa do enfarte foi estresse.