Eu sou um cara megasensível. E muito passional. Talvez, na Perestroika, o mais passional de todos. O que tem o lado bom e o ruim, como tudo na vida. O lado ruim é que fica mais difícil lidar com críticas. Muitas vezes já quero brigar com comentários no nosso blog, com twitadas e com outros percalços naturais do processo de se ter uma empresa, administrar uma marca e lidar com pessoas. Graças a Deus tem o Tiago aqui que sempre faz o contraponto e me faz pensar sobre essas coisas antes de sair tomando atitudes.
O lado bom é que fico emocionado com as coisas, com as oportunidades, com os elogios, com as coisas que dão certo e tal. Fico feliz mesmo, arrepiado, com vontade de sair pulando às vezes, chorando outras e, algumas vezes, de sair pela Perestroika andando de cueca - o que de fato já aconteceu algumas vezes. Talvez por isso, tenha me emocionado tanto com o surfe do Romeu no Dilúvio.
Sou um cara que se leva pelas paixões. E embora isso tenha tb o seu lado bom e o ruim, ser extremamente racional também tem. E sou feliz assim, mesmo que momentos de tristeza também acompanhem essa jeito apaixonado de viver.
Para mim, viver sem paixão não faz o menor sentido. Trabalhar sem paixão também não. E o resumo do que quero dizer para vocês é esse: persigam a paixão. Na vida, no trabalho e em tudo o que fizerem.
*******
Posso dar essa sugestão com a tranquilidade de quem arriscou muita coisa em nome disso. Vejam bem: eu comecei minha carreira na publicidade como atendimento na Dez Propaganda, em 98. E não foi um estagiozinho de 3 meses, como acontece com muita gente. Fiz estágio, em pouco tempo, fui contratado como assistente. Passei 3 anos e meio no atendimento. Era uma jovem promessa, que cresceu rápido na agência. Eu tinha 22 anos e era o segundo atendimento da agência na época. Mas eu não tava feliz. Pedi demissão e decidi que ia para a criação. Fui absorvido na própria Dez, como estagiário de redação, ganhando 8 vezes menos do que ganhava como atendimento.
Na criação, fui contratado 3 meses depois. 9 meses depois, fui o Redator do Ano do Prêmio Colunistas. Depois sai e fui trabalhar na Paim como redator. Em 2005, logo depois da conta da Renner ter ido para a Escala, assumi a área de Novos Negócios da Paim, deixando a trajetória de redator publicitário para trás e assumindo uma rotina ligada a prospecção, gestão de projetos e planejamento.
Um ano depois, nova guinada: virei Diretor de Criação da Paim. Tinha 28 anos. Era uma coisa bem fora do normal uma pessoa dessa idade estar numa posição dessas numa das 5 maiores agências do estado. Uma situação bem confortável, digamos assim. Bom, eu não tinha nem 4 meses como DC e fui convidado para trabalhar na LiveAD, uma empresa que eu nem sabia o que fazia. Mas segui totalmente meus instintos - porque a razão talvez mandasse eu ficar.
Menos de 2 anos depois de assumir a Criação da LiveAD, larguei tudo para me dedicar exclusivamente à Perestroika, que ainda estava engatinhando, sem nenhuma garantia que daria certo, e ganhando significativamente menos do que lá.
Em todas essas mudanças, eu sempre tive medo. Foi um trabalho árduo dos meus sentimentos tentando convencer minha razão de que era a coisa certa a fazer, o que é mais difícil que o contrário (a razão convencendo os sentimentos). Mas nunca consegui jogar para debaixo do tapete o que o meu coração (ui, que gay) dizia para fazer. E em todas, absolutamente TODAS as mudanças, eu nunca me arrependi. Sempre fiquei mais feliz. Que na real é o que importa.
*******
Tá: para não parecer que tudo foi tão perfeito, teve uma vez que eu fiquei um tempão numa empresa sem amá-la mais. Tipo todas as células do meu corpo diziam que eu não tinha mais que estar lá. Menos o meu cérebro. “O que tu vai fazer?” “Tu vai arregar?” “Se tu sair, tu vai assumir o teu fracasso.”
Na real, eu queria racionalmente vencer aquela situação. Não queria pecar por omissão, por falta de tentativa. E fiquei um bom tempo (mesmo) nessa empresa. Claro, no final o fato de eu ter ficado lá me gerou muito aprendizado. Mas quando finalmente eu sai, tive uma puta sensação de alívio, de libertação, de felicidade. E fiquei me perguntando por que não tinha saído antes. Isso também foi aprendizado.
*******
Hoje, eu sei que dá para ser feliz fazendo o que se quer fazer. Vivo isso na Perestroika todos os dias. Cada trabalho, cada novo projeto, cada novo curso é um puta tesão. Muita vontade de se envolver, de mergulhar, de se entregar. E quando a gente se entrega, não tem problema ter que trabalhar todos os sábados, não tem nada de errado acordar às 8 da manhã de domingo para fazer reunião. O amor é cego.
E o mais legal é que a recompensa é o próprio processo de trabalho.
Muita gente não se dá conta disso e fica se focando no trabalho final, na execução final, no filme pronto na formatura. Mas o processo criativo - uma das poucas coisas que absorvi do curso do Charles Watson - deve ser um processo auto-télico, onde encontramos e focamos o prazer no processo, e não no ponto final. Em outras palavras, o caminho é a viagem, não o lugar de chegada.
A gente vê que os alunos que mais se puxam, mais se empenham, mais nos impressionam, são os mais apaixonados. Pela Perestroika. Pelo projeto que estão fazendo. Pela vida, como é o caso do Romeu.
O Tiago já escreveu um post muito legal nesse blog sobre as recompensas que se obtém no trabalho. Eu acho que a paixão é uma das recompensas da vida.
*******
Tem outra coisa que eu acho que torna todo esse discurso mais relevante ainda que é o seguinte: a gente trabalha com criação. Ou pelo menos com o processamento de um monte de informação, conteúdo e estímulos que recebemos para a formatação de um produto criativo. Seja ele comercial, experimental ou autoral.
Eu particularmente acredito que a sensibilidade necessária para identificar esses estímulos, essas vibrações vêm da paixão.
Uma vez li em algum lugar uma história do Lupicínio Rodrigues sobre as várias mulheres que ele teve, e o sofrimento que a paixão não correspondida ou traumática que algumas desses romances geraram nele. E ele disse algo, que não foi bem isso, mas que é mais ou menos por aqui: ele não se arrependia de ter se apaixonado e ter se entregado em todos esses casos, mesmo para as mulheres que mais fizeram ele sofrer. Porque as que mais fizeram ele sofrer foram as responsáveis pelas melhores obras dele.
Felicidade, tristeza, emoções forte enfim são combustível criativo.
Vejam o Vinícius de Moraes. O cara foi foda na produção cultural e artística brasileira. Foi um cara que se apaixonou muitas vezes. Casou 9, só para a gente ter noção. Porra, era um cara que acreditava no amor. E provavelmente, na paixão.
*******
A razão é muito importante, é claro. Pensem, racionalizem. Mas lembrem-se que a razão nos deixa seguros, e nos deixa brabos. O que nos deixa feliz ou triste é emoção.
Planejar, projetar, pensar é bem racional.
Mas a paixão é que vai a gente ir lá e fazer.
Vão lá e faça.
Se apaixonem.
E, de vez em quando, deixem se levar pelas paixões. Acho que vocês vão concordar comigo que vale a pena.
Beijos,
Felipe
52 Comentários
25 de novembro de 2009 às 15:25
Que máximo! Entendo e sinto muito bem tudo isso que eu li, sim eu li tu-do! Que afudê! =]
25 de novembro de 2009 às 15:25
(Pode parecer que eu estou contraponto o teu post. Mas acho que não: ele só acrescenta informações que, a meu ver, não conflituam com o que tu diz.)
Eu acho que não existe conflito entre sensibilidade e racionalidade. A gente sempre polariza as coisas. “Ou o cara é sensível, ou é racional”. “Ou o cara é culto ou é divertido”. “Ou é gostosa ou é inteligente”.
Acho que aí que está o segredo de ser um cara especial. O cara não precisa abrir mão de nenhum dos dois: nem da paixão, nem da razão.
As pessoas mais interessantes que eu conheço são as que parecem contraditórias.
Exemplo: eu sempre vi várias pessoas falando “pô, como aquele cara é criativo”, só porque o cara não tinha método. O que me parece absurdo: o método só ajuda a criatividade.
É só pensar nos grande artistas da humanidade. Leonardo da Vinci e Picasso eram extremamente técnicos, e nem por isso se expressavam de forma burocrática.
Acho que a paixão é essencial, mas não acho que ela tenha que ser cega para ser autêntica. Me parece uma polarização. “Só a paixão cega é paixão de verdade”. Por quê?
De novo: sei que tu não falou isso. Mas, como lado mais cri-cri da Perestroika, eu me senti tentado a contribuir com o teu ponto de vista.
De um jeito bastante racional, mas extremamemente apaixonado também.
Um beijo pra ti.
tg
25 de novembro de 2009 às 15:27
Adorei o post. Foi ótimo para meu dia.. meu mês.. e algumas decisões que tô tomando.
abraço tiago.
25 de novembro de 2009 às 15:37
felipe e tiago, cade o nosso projetim?
bjos com tesao pra voces
dudu
25 de novembro de 2009 às 15:41
que afudê…
um dos melhores posts desse blog…
mandou muito bem Felipe…
25 de novembro de 2009 às 17:39
Concordo.
A prova de que o Felipe é um apaixonado pela Perestroika é que, sem ninguém obrigá-lo, ele faz um post de 101 linhas. Hahaha!
E uma prova de que eu sou um apaixonado pela imbecilidade é que, sim, eu contei. ![]()
25 de novembro de 2009 às 18:24
1000% apoiado. Penso como tu, e cada vez mais acho que esse é o caminho. A vida sem paixão fica cinza.
Demais!
Beijos, saudades de todos vocês!
25 de novembro de 2009 às 19:04
Eu tb concordo. Larguei um emprego numa multinacional porque eu não estava feliz lá, não acreditava no que fazia. Claro que o ideal era que eu saísse com algo em vista, mas como não pintou nada, me planejei e saí assim mesmo. Agora, aos poucos, novas portas estão se abrindo. E saõ as portas certas ![]()
bj
25 de novembro de 2009 às 22:14
como as palavras sinceras contagiam.
sou adepta de tal caos adorável, dos seres desconcertantes: ora baudelaire, ora descartes.
acredito que entre esta essência e existência temos esse vácuo; que faz pessoas que trabalham com a folha branca terem tais angústias.
porém, me satisfaço. pois na filosofia, angústia é ação, pulsão, reação, é sim, é plural, e o resultado disto, são tantos desejos.
por isto, fico com baudelaire
‘quanto mais se quer, melhor se quer’
beijo gordo guris!
26 de novembro de 2009 às 0:49
Oh meu, sabe qdo a gente fica triste qdo ta lendo um texto e ele termina? Daí a gente volta pra uma parte la em cima, lê novamente pra sentir o arrepio e respira fundo? Pois é, foi esse o mru sentimento. Sentimento, também, de estar lendo e se identificando com cada frase, com cada paragrafo.
Segue sempre esse teu ciraçaozinho que tu vai mais longe ainda, galo cinza!!!
26 de novembro de 2009 às 8:44
Arrepiada. Parabéns, Felipe.
Adorei ler esse post, me trouxe good vibrations. haha
Me encontrei nessas linhas.
Abraço e saudades!
26 de novembro de 2009 às 8:53
Voltei a dar as caras.
Meu, voces nao sabem qnta falta me faz o cheirinho da Perestroika e de todo o ambiente, curso e tudo ai. Realmente é tudo do caraleo.
I´ll be back!
Mas assim, o texto do Felipe me deixou emocionado de ver q pelo menos estou indo no caminho certo, pq muitas vezes parece q emoção nao vai levar a nada. Talvez seja pq o mundo é muito racional e levar as coisas assim parece ser um absurdo.
Abração a todos.
Saudades.
26 de novembro de 2009 às 9:47
Bah, sem palavras. Gostei mesmo. E Vinícius é um cara que acho sensacional demais por tudo que ele dizia e escrevia como fruto de tantas paixões junto à criatividade natural do cara.
Como uma amiga minha ressaltou, foi o primeiro stand-up brasileiro. Sentado com copo de uísque.
“Sem paixão estaríamos completamente mortos.”, já disse um personagem em uma série de Joss Whedon. Simples, mas verdadeiro.
26 de novembro de 2009 às 10:29
Gosto de paixão.
Mas também concordo com o Tiago.
O lado cordenado é que me faz sobreviver em sociedade.
O lado loco precisa ser domado.
26 de novembro de 2009 às 11:42
To na parte ainda que tu diz em estar numa empresa e querer sair, mas tb nao seja a coisa certa. Sei la! Post do caralho!!
26 de novembro de 2009 às 12:36
tb Lacerda :/
Lindão isso felipe ![]()
acho q nem seria questão de rotular ” uma pessoa é isso ou é aquilo” …acho q por mais que a gente tente controlar sempre vai pender mais para um lado.
E se não tivesse essa briga entre emoção e racionalidade.. acho q a vida não teria graça. A propria briga entre as duas coisas gera uma emoção.
nossa viagei :p
2×0 p emoção o/
26 de novembro de 2009 às 13:19
Paixão é combustível!!! Concordo contigo…
Muito melhor ver o mundo colorido.
Sucesso sempre p ti!
26 de novembro de 2009 às 16:16
Usar a emoção na vida, seja por nada ou pra decisões importantes, é uma das coisas mais racionais que existe.
Quanto mais usarmos a razão, mais chegaremos à conclusão de que devemos usar a emoção. Na minha opinião, elas se misturam.
27 de novembro de 2009 às 7:44
Ou seja: tu ficou puto com minhas críticas ao surf na mer… ops, no Dilúvio.
=)
27 de novembro de 2009 às 13:09
Bah. Injetou um bilhão de ânimo na minha pessoa esse post…
MUITO AFUDÊ!
27 de novembro de 2009 às 18:21
O Felipe ficou puto por causa de uns e-mails-bomba que ele andou recebendo.
27 de novembro de 2009 às 19:21
Felipe,
lendo parecia que eu estava te escutando falar! paixao eh tudo,… e pra mim trabalho tem que ter tesao, senao eh sofrimento!
28 de novembro de 2009 às 15:55
Depois desse post, todo mundo ficou puto, no sentido gay da coisa, pelo Felipe.
29 de novembro de 2009 às 10:45
Prá quem não sabe… o Felipe, além de outras virtudes mil, é o criador do logo do Point da Neve - o que já me faz gostar dele por uma questão de osmose diária.
>> O texto é ótimo, completamente verdadeiro : a paixão tem valor econômico real ; poder trabalhar com paixão é salário - palpável de forma muito clara num dia-a-dia de sorrisos, sem relógio, segurando o pipi para daqui a pouco, com sonhos e projetos que jamais terminam.
Trabalhar com paixão é premio, tem que merecer.
Bueno, se o vivente consegue juntar paixão & entusiasmo com o método & disciplina que lembrou o Tiago, well… pls, me dá seu nome /CPF e endereço, é claro que quero a criatura trabalhando comigo.
Enfim, um texto inspirador para aqueles que acreditam MUITO em paixão, e na busca de juntar essa coisa enorme e quase-inconduzível com organização, paz e racionalidade.
Parabéns, Felipe, meu Domingo ficou melhor !
Brothers da Perestroika, saudades eternas e na torcida de sempre.
OS : aproveitando o ensejo… William e Gabi Nunes, adorei suas mensagens no Causo Doritos… carinho & generosidade são um ótimo plantio - mas vocês já devem saber bem disso, né ?
beto valle
NOVEMBRO/2009
4 de dezembro de 2009 às 10:37
Muito obrigado pelos ensinamentos de vocês!
Vai lá e faz! Disso eu não esqueço ![]()
11 de dezembro de 2009 às 1:04
Feito! Muito bom! Acho que agora estou me apaixonando pelo meu trabalho… ![]()
12 de dezembro de 2009 às 0:04
Oi Filipe! cara, a sintese do teu texto é meu atual lema de vida! algo como “onde esta teu coração está tua casa”… tenho um blog, onde em um dos posts escrevi sobre a emoção e seu poder em nós… voltado para a área de criação , que por conta de renuncias corajosas baseadas no coração e enforcando a razao, decidi seguir…
grande abraço e será um prazer te “receber” por lá!
Pedro
17 de dezembro de 2009 às 10:06
Belo post, Felipe!
Concordo plenamente contigo e aproveito para fazer uma sugestão: dá uma lida no livro “Dedique-se de Coração”, do CEO da Starbucks (Howard Schultz). É a prova de que não há combustível melhor do que a paixão para evoluir na vida, seja como profissional, seja como ser humano.
Abraços
21 de dezembro de 2009 às 22:00
É TÃO gostoso ver alguém falando de paixão em relação ao que faz. Hoje em dia o que eu mais vejo é gente se matando num trabalho que odeia pra pagar as contas, sem sonhar, sem desejar, sem se apaixonar. Aceitando a situação sem nem lutar. E daí vejo um post desse todo “GO AHEAD” e dizendo pra se arriscar, pra seguir seus instintos, pra se apaixonar. “Apaixonar-se é o último ato revolucionário. junte-se a resistência: apaixone-se!”. Demais.

25 de novembro de 2009 às 15:19
Deu até saudades de ti, Felipe.
(ui, que gay)