Nas minhas vidas passadas, eu devo ter sido um árabe, daqueles que vendem bugigangas no meio de algum feirão de Constantinopla.
Eu adoro vender. E com certeza esse foi um fator que contribuiu muito para que eu tenha caído na publicidade. (Aos que ainda não se deram conta: publicidade é só, e simplesmente só, vender.)
Lembro que quando tinha 15 anos, pedi autorização para o meu pai para trabalhar no McDonald’s. Ele não entendeu muito bem meu pedido. Mas eu queria trabalhar no balcão, conhecendo pessoas. E convencendo pessoas a levar por apenas mais R$ 2,00 uma tortinha de maçã.
Mas não convencer na maldade. Não convencer para forçar um consumismo injustificado. Eu queria tentar, de alguma forma, ajudar na escolha da pessoa. Queria que ela fizesse uma compra melhor a partir da minha indicação.
Meus amigos de Farroupilha achavam muito imbecil tudo isso. Pensavam que eu só poderia estar louco. Qual é a graça de ser um vendedor, Tiago? De tanto ouvir aqui e ali, desisti do meu plano e nunca entrei para a trupe do Ronald e cia.
Mas essa filosofia, de ser um intermediário da boa compra, ficou.
Eu acho que o bom vendedor não é aquele que engana o consumidor. Não é o picareta. Não é o que força a barra. Não é o que joga sujo para ganhar uma comissão no final do mês.
É quem interpreta o problema e encontra uma boa solução. É aquele que convence a pessoa a comprar algo que seja realmente útil. É o cara que consegue abrir os olhos do consumidor para funcionalidades que ele nem sabia que existiam. É quem acredita que, no final, a compra pode ser boa para todas as partes.
É o cara que diz: Realmente, Dona Maria, a senhora não precisa de uma cama King Size. Mas quem sabe nós vemos um colchão novo, para diminuir essa sua dor na coluna?
Talvez, a profissão de vendedor seja a que melhor represente a filosofia Ganha-ganha. Porque, para mim, o bom vendedor é justamente o cara que acredita no ganha-ganha. Que acredita que ninguém precisa perder para que todos saiam ganhando.
***
Por sinal, eu acho que todas as relações entre as pessoas deveriam respeitar esse princípio. Todas as relações deveriam ser (ou tentar ser) ganha-ganha.
Porque quando a gente acha que, para se dar bem em alguma coisa, tem que enrolar o outro: cuidado. Tem coisa errada aí.
Sempre que eu participo de um “momento ganha-ganha”, parece que eu estou contribuindo para o equilíbrio do universo. Para a Corrente do Bem. Para (OK, já que estamos em período de Ano Novo) um mundo mais bonzinho.
Quando isso acontece, eu não me sinto culpado, já que não estou prejudicando ninguém. E também não me sinto mal, porque não deixei que ninguém me sacaneasse. É só o justo, ora.
Mas é complicado. Porque nós fomos educados para levar máxima vantagem em tudo. Quando talvez o raciocínio correto seja simplesmente tentar tirar algo bom para todo mundo em todas as situações.
Naquela cena famosa do Mente Brilhante, o Nash diz: Se todos chegarem na loira, todo mundo sai perdendo. Se todos chegarmos nas amigas, todo mundo se dá bem. Perfeito. Mas será que não existe um jeito de não deixar a loira chupando dedo? Aí sim, todo mundo saiu ganhando. (Para ver a cena, clique aqui)
É curioso, mas as relações ficam mais autênticas, genuínas e humanas. Tanto você com seus amigos. Você com sua família. Você na sua empresa. Você com a sua namorada. Você com você mesmo.
Ou simplesmente você com o vendedor da Magazine Luiza.
13 Comentários
15 de janeiro de 2010 às 17:13
Aconteceu comigo.
Na Perestroika.
Com o Tiago.
Não a parte das mulheres.
A do Ganha-Ganha.
15 de janeiro de 2010 às 21:22
Demais, galera, demais. O Tcheco sabe. Acho que uma relação ganha-ganha (essa tradução de Win-win Situation soa meio ’safada’, ou é apenas comigo?) seria vender a camisa “Não sou o OTTO GUERRA.”, em referência ao mesmo Niver do Gonça. A não ser, é claro, que tu seja um sacana e convença o Otto a comprá-la.
16 de janeiro de 2010 às 13:39
Hahahahahaha!!! Genial!!! Pra quem não sabe do que estamos falando:
http://www.youtube.com/watch?v=Z3k_7rdbypc
É ali pelos 3:00.
Genial.
16 de janeiro de 2010 às 18:39
O post ficou completamente ofuscado pela lembrança do vídeo do Tcheco.
“Todos ganharam” é mestre!
Ah, errei a secundagem. É ali pelos 9:00.
tg
16 de janeiro de 2010 às 20:35
TG me lembra ToscoGraphics, que me lembra Allan Sieber, que me lembra Deus é Pai. Que por acaso é da Otto Desenhos.
Enfim, só pela risada, outro clássico: http://www.youtube.com/watch?v=5E7PRLUhhz0
16 de janeiro de 2010 às 23:08
Curti o post, mas para a Magazine Luiza não existe ganha-ganha. A loja é um cocô.
18 de janeiro de 2010 às 1:41
teoricamente toda venda/compra tem esse princípio. tudo que tu compra, teoricamente, vale o dinheiro que tu gastou, e pro vendedor, o produto que ele ta se desfazendo vale a grana que ele tá ganhando.
a lei do capitalismo, da oferta/demanda…
o consumidor que tenta sair disso, é o ladrão, que rouba o produto sem dar 1 centavo. e o comerciante que tenta sair disso é burro, pois logra o consumidor 1 vez, provavelmente a última..
se o cara te vender um carro falando um monte de mentira, tu, mais cedo ou mais tarde, vai ver a bomba que comprou e nunca mais voltará lá..
aquele segurança duma noitezinha da joão alfredo que te diz pra não entrar pq tá caro, pouca gente e muito mais homem, sabe? aquele cara vai dizer que tá muito bom no findi que vem e tu entra certo! simpes, ou pelo menos deveria ser.
18 de janeiro de 2010 às 14:44
Mudando de assunto (na verdade, utilizando esse espaço para uma crítica construtiva):
Era legal quando vocês postavam um texto por dia, pelo menos.
O Rafa nunca mais escreveu, o Marcio também não,
os Czares não contribuíram mais, as coisas meio que pararam.
Sinto falta afu de entrar todos os dias aqui e ler um texto afudê.
Abraço!
18 de janeiro de 2010 às 21:00
Mandou bem, Santie. É legal postar com alguma freqüência considerável, dentro do possível, claro. Até porque esse é um dos poucos blogs que fazem parte dos meus F5, ou seja, dos que realmente sempre lembro de clicar em busca de alguma leitura online.
19 de janeiro de 2010 às 8:39
Ótimo texto tiago, mas tu esqueceu de mencionar, que após o trecho do youtube de “Uma mente brilhante” os amigos acusam a idéia dele por acharem que ele diz isso para ele ter a loira.

15 de janeiro de 2010 às 15:31
ou seja, Tiago. pela tua metáfora, a melhor solução pra todo mundo se dar bem é a loira fazer um threesome com um dos casais formados?
gostei.